A cultura da música barroca no Brasil Colonial – Parte 1

A formação (1700-1750)

O desenvolvimento da atividade musical em Minas Gerais ocorreu, paralelamente à construção dos primeiros arraiais e de suas capelas de taipa. O gosto pela boa música foi inculcado nos portugueses por uma dinastia (desde a primeira) de reis-músicos, conhecedores do cantochão, quase todos eles compositores, apreciadores da ópera e da música de câmara e criadores, ao mesmo tempo, da maior biblioteca musical que, naquele período, a Europa conheceu. As capelas reais e a ópera representavam, para o português uma verdadeira bíblia capaz de proporcionar-lhes infindas emoções estéticas.

Em Minas Gerais, uma miserável capela podia oferecer mais esperança e tranquilizar a ansiedade de um solitário grupo de aventureiros do que uma luxuosa matriz em Portugal. Quando D. Pedro de Almeida e Portugal passou por São João del-Rei, rumo a vila Rica – em 1717 – um regente musical, Antônio do Carmo Lopes, em cuja residência se hospedou esse representante máximo da Coroa, comprou para uma função oferecida a seu hóspede, mais “tres negros choromelleyros, que lhe custarão quatro mil cruzados“. Trata-se certamente de músicos, tocadores de flajolé ou de oboé – que acompanhavam a aluvião humana em direção a Minas Gerais, homem livre o primeiro, escravos os demais. Entretanto, foi desses músicos, desde o início disseminados pelas comarcas da capitania, que nascera as gerações de músicos que mais tarde celebrizaram os compositores e intérpretes, a ponto de um provérbio alusivo à sua capacidade de ter chegado até nosso século: “Mineiro sabe duas coisas bem: solfejo e latim”

Oboé

Há dois documentos importantes desse primeiro período que nos fornecem abundante informação sobre a atividade musical. Um é o livro intitulado Triumpho Eucharistico, escrito por Simão Ferreira Machado e publicado em Lisboa em 1734. Refere-se a essa obra descrição da transladação, por meio de numerosos cortejos do Santíssimo Sacramento, desde a Igreja de Nossa Senhora do Rosário – onde se achava provisoriamente instalado – até a nova matriz de Vila Rica erigida sobre a invocação de Nossa Senhora do Pilar de Ouro preto.  A descrição refere-se a grupos vocais e instrumentais, a grupos dançantes, a um notável trombeteiro alemão (sem dúvida componente do regimento local) e a uma missa de dois coros.

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