Brasil Colonial – A conquista do Nordeste: Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará

As primeiras tentativas de conquista 

Governo Luís de Brito Almeida (1572-1578)

Ao tempo de Luís de Brito, sucessor de Mem de Sá para as capitanias do Norte, realiza-se em seu período, sem maiores consequências, a expedição de Fernão da Silva contra os Petiguaras da Paraíba. Outra tentativa no mesmo sentido, a de Bernardo Pimentel de Almeida, efetuada no ano seguinte, ou, mais precisamente, a partir de setembro de 1575, não chega a concluir-se, pois o chefe da expedição, sobrinho do governador-geral, tendo partido por via marítima, vê-se impedido, pelos ventos contrários, de alcançar seu objetivo.

Frustrados esses primeiros esforços, devota-se Luís de Brito à conquista do Rio Real, reduto de índios adversos ou foragidos da Bahia, e onde, de longa data, sustentavam comércio às naus dos franceses. O próprio governador sai em pessoa da Bahia para aquelas partes em fins de novembro de 1575, tendo enviado meses antes, com o mesmo alvo, uma força expedicionária sob a chefia de um capitão que vários historiadores – sem seguro fundamento, segundo o Pe. Serafim Leite – têm identificado com o grande criador e proprietário, Garcia d´Ávila, tronco da Casa da Torre. Essa força militar, que deveria acompanhar e apoiar a missão jesuítica do Padre Gaspar Lourenço e do Irmão João Saloni, logo se desentendeu, no entanto, com os religiosos e, unidos aos colonos e mamelucos, seus homens fizeram-se odiosos aos índios, com o que iriam retardar a conquista religiosa e a própria integração de Sergipe aos senhorios efetivos da Coroa.

Governo Lourenço da Veiga (1578-1581)

Reunido novamente o Brasil sob um só governador geral, com a nomeação, para exercer o cargo, de Lourenço da Veiga (1578-1581), adia-se ainda por algum tempo a ocupação definitiva dessa breve faixa de terra (Paraíba) ainda povoada de tribos aguerridas e em tratos constantes com os franceses, que embaraçam a livre comunicação entre os dois núcleos economicamente mais prósperos da América lusitana, isto é, entre a Bahia de Todos os Santos e Pernambuco.

É certo que o novo governador não se desinteressaria da conquista de outra região igualmente frequentada pelos traficantes da Normandia ou da Bretanha e que, apesar das tentativas anteriores de Fernão da Silva e Bernardo Pimentel, permanecia estranho à órbita das autoridades coloniais lusitanas. Mas Frutuoso Barbosa, que se propusera ir colonizar a Paraíba à própria custa, veria igualmente malogrado esse primeiro intento. Dispersas por uma tempestade as quatro embarcações onde levava consigo numerosas famílias para povoar a terra, soldados para defendê-la, religiosos (beneditinos, carmelitas, franciscanos) para assistir no espiritual os moradores, terá de regressar à Europa, sem desistir, no entanto, de empresa tão mal começada.

Após a morte de Lourenço da Veiga o governo do Brasil fora confiado, em caráter interino, à Câmara, com colaboração do bispo e do ouvidor-geral, que em pouco tempo é absorvido por este, em detrimento dos outros. Estes não se conformaram com a usurpação, e essas contendas trouxeram a consequência de não dar espaço à políticas de expansão ao longo do litoral nordestino. Nesse período, houve uma tentativa de Frutuosos Barbosa, que sai de Pernambuco rumo ao norte à frente de uma expedição marítima articulada com outra, enviada por terra sob o comando do ouvidor Simão Rodrigues Cardoso, que aparentemente não tinham auxílio ou aprovação por parte do governo interino instalado na Bahia. Essa tentativa, apesar de ter resultado em naus francesas queimadas no porto da Paraíba, não deixou de ter consequências nefastas por conta do acirramento das hostilidades dos índios, que passariam a ameaçar com mais audácia do que antes e a assolar os estabelecimentos dos moradores da Capitania de Itamaracá.

Governo Manuel Telles Barreto (1583-1587)

Só em maio de 1583 chega ao Brasil o novo governador nomeado, que se decide a retomar com mais ímpeto a empreitada abandonada. Desta vez ainda aparece o nome de Frutuoso Barbosa entre os que partem de Pernambuco para o norte, mas seguirá por terra e em companhia de D. Filipe de Moura, capitão e lugar-tenente do donatário, à frente de uma força constituída de centenas de homens a cavalo e a pé. A expedição marítima com o mesmo destino formada, em sua maior parte, de navios espanhóis, ficará a cargo do Almirante Diogo Flores Valdez.

O encontro, novamente, de barcos franceses na Paraíba e o incêndio de cinco deles, por ordem do comandante castelhano, mostram que não seriam descabidos os temores da Coroa quanto à penetração crescente desses intrusos e ao bom êxito dos seus contatos com os naturais do lugar. Após essa vitória, empreenderam os expedicionários a construção de um forte em frente ao Cabedelo (ver mapa), sobre a margem esquerda do Rio Paraíba, com uma guarnição de cento e dez soldados castelhanos e cinquenta portugueses sob o comando de Francisco Castejón. Para o povoado que pretendia formar vizinho ao forte reservou Frutuoso Barbosa o nome de Cidade Filipéia, em homenagem ao Rei de Castela e, agora, também de Portugal.

Contudo, mal partira, de regresso ao Velho Mundo, a frota de Diogo Flores, os Petiguaras das imediações, auxiliados pelos franceses, tomaram novo fôlego e entraram a investir sobre o reduto, pondo-lhe cerco. O assalto ocorreu em meio às dissensões que já formavam ali entre portugueses e castelhanos e só não foi decisivo em virtude do socorro que aos sitiados levou, por via marítima, o Capitão Pedro Lopes, de Itamaracá, após ter queimado no Rio Mamanguape outros dois barcos franceses. Nem esse, porém, nem o auxílio do ouvidor Martim Leitão, que chegara à frente de uma tropa recrutada entre moradores das  capitanias vizinhas, impediram que a nova aventura da Paraíba terminasse mal para lusitanos e castelhanos. Desanimado ante os constantes desperdícios que padecera, Frutuoso Barbosa voltou a Olinda, largando sua efêmera povoação. Castejón anda resistiu até junho de 1586, mas deliberou afinal mandar queimar o forte, lançar à água toda a artilharia e meter a pique o navio que fora ali deixado para sua proteção, antes de regressar por terra a Itamaracá.

Contudo, se as discórdias suscitadas entre portugueses e espanhóis tinham contribuído para o enfraquecimento dos defensores do forte, a desunião agora já manifesta entre os Petiguaras, inimigos tradicionais dos primeiros, e os Tabajaras de Piragibe, iam permitir a Martim Leitão recomeçar a empreitada à Paraíba. Fortalecido agora pelo apoio dos índios, que momentaneamente se tinham unido aos seus contrários, os portugueses podem voltar à Paraíba, onde, a 5 de agosto de 1586, principiam a reconstruir a fortaleza e a cidade. Durante oito meses aproximadamente, desenvolveram-se os trabalhos entre sobressaltos provocados pela presença das parcialidades adversas e dos franceses, que por todos os meios procuravam embaraçar o novo estabelecimento lusitano.

Quando em 1587 voltou Martim Leitão a Pernambuco, parecia-lhe e aos seus companheiros terminada a conquista do litoral da Paraíba. Esse engano iria mostrar-se com os novos ataques dos Petiguaras e também de franceses, os quais, desembarcados em 1597 de uma armada de treze navios, desafiam, sem maior resultado aliás, a segurança do fortim lusitano. De qualquer modo ficava demonstrada a fragilidade da ocupação da orla marítima da região imediatamente ao norte da Capitania de Itamaracá.


Necessidade de conquistar o Rio Grande para consolidar a conquista da Paraíba

Para a consolidação da conquista da Paraíba fazia-se necessário ir tirar dos odiados intrusos a costa do Rio Grande, que se convertera aos poucos em trampolim dos seus assaltos. Desde 1596, a própria Coroa empenhara-se, atendendo a instâncias de D. Francisco de Sousa, governador-geral do Brasil, em promover o descobrimento e a definitiva incorporação daquelas terras aos seus domínios. Para tanto expediram-se ordens expressas a Feliciano Coelho de Carvalho, o capitão-mor da Paraíba. E não faltariam outras razões ponderáveis em favor dessa nova expansão rumo ao norte e ao noroeste. Pois não consta de um papel assinado por Feliciano Coelho, acerca das atividades dos franceses em toda a região, que um deles achara em Capaoba riquíssimos depósitos de Prata? Contudo o principal motivo para se prosseguir sem mais atraso a conquista almejada vinha dos perigos a que se expunha o reduto mais setentrional dos portugueses no Brasil. O capitão da Paraíba cansara-se de reclamar do governador-geral, de Manuel de Mascarenhas Homem, capitão-mor de Pernambuco, e até mesmo de Sua Majestade, a remessa urgente de tropas, pólvora e munições que permitissem o bom sucesso da empresa. Em carta endereçada a Filipe II e que provavelmente não chegou ao destino, interceptada que foi pelos ingleses, deixa transparecer, em 20 de agosto de 1597, uma ponta de irritação contra a aparente desleixo do governador diante de seus constantes clamores. “Porque aqui”, escreve, aludindo à Paraíba, “não dispomos nem de armas, nem de pólvora, nem de outros quaisquer recursos que nos permitam opor resistência aos nossos inimigos, nem há quem se digne ajudar-nos para a defesa desta terra e o serviço de Vossa Majestade”. O próprio governador-geral só cuidava, aparentemente, da fábrica de seus engenhos de açúcar e o fazia às custa da Real Fazenda. “Se D. Francisco de Sousa”, acrescenta Feliciano Coelho, “me tivesse mandado aqueles duzentos e cinquenta soldados que lhe pedi, os quais viviam na fortaleza do Recife e nada mais faziam do que consumir alimentos e bens de Vossa Majestade, em vez de chama-los à Bahia, onde não eram precisos, estas guerras do Petiguara teriam cessado há muito tempo, poupando a Vossa Majestade muitos dos encargos que requer a conquista do Rio Grande”.

À mesma costa do Rio Grande continuariam a aportar, posto que mais cautelosamente, depois da conquista portuguesa. Iam, além disso, a consertar ali suas naus e fornecer-se de mantimentos, água e lenha, que de bom grado lhes davam os índios. Os mais denodados arriscavam-se mais para o sul, onde, a par do pau-brasil, do âmbar e da malagueta, comuns a todas aquelas costas, podiam carregar açúcares, fumo e outras mercadorias de sua vontade.

A captura do Rio Grande pelo portugueses, só teriam a animá-la, em verdade, motivos militares, ou seja, a necessidade premente de se destruírem os ninhos de inimigos estrangeiros, que aliados a tribos locais saíam frequentemente a inquietar as populações e os engenhos das terras já conquistadas, a menos que se verificasse nele a notícia das ambicionadas minas de prata. Mas a esperança não se confirmaria e, em contraste com a Paraíba, que em breve iria dar à Fazenda Real maiores proveitos do que todas as mais capitanias do Brasil, excetuadas apenas a da Bahia e a de Pernambuco, seriam aquelas terras geralmente reputadas por fracas, “mais para gados e criações que para canaviais e roças…” Assim se exprimirá, passados quinze anos, o autor do Livro que dá Razão do Estado do Brasil, acrescentando, todavia: “às vezes faltaram nelas chuvas, mas tem muitas partes em que se podem fazer fazendas, ainda que as águas são rasteiras, e os matos ão são de madeiras tão reais como os da Paraíba, mas não faltam as que hoje podem ser necessárias: lenhas não faltarão nunca”.

Até 1618, consoante informações do Brandônio, dos Diálogos das Grandezas, era a terra mais disposta para gados, dos quais abundava muita quantidade até entrar na Capitania da Paraíba, que lhe estava conjunta, de sorte que não existia em toda ela mais de um engenho de fazer açúcares, sem dúvida o de Cunhaú fundado por Jerônimo de Albuquerque. Doze anos mais tarde, quando aportou no Brasil a esquadra de Lonck, ainda não existia mais do que um par de engenhos por todo o Rio Grande, enquanto na Paraíba seu número ia a duas dezenas.

A mancebia dos aventureiros

Ali, como em tantos outros lugares da América, aventureiros da Normandia e da Bretanha andavam em íntima promiscuidade com os grupos indígenas estabelecidos na marinha ou mesmo no sertão, afeiçoando-se aos usos e cerimônias gentílicas, valendo-se em tudo de seus préstimos, falando mal ou bem, sua língua, esposando e principalmente explorando, em proveito próprio, sua animosidade contra os portugueses. Em contraste com muitos colonos anglo-saxões e holandeses do Novo Mundo, não se mostravam eles esquivos ao convívio e mestiçagem com as populações nativas. “La France épusait l’Amérique, au lieu de l’ex terminer pour y substituer une Europe comme on fait les colons anglais“, dirá Michelet em sua História de França. E um viajante do século XVII, Peter Kalm, nota com espanto que, enquanto os povos todos do mundo civilizado assimilavam então os usos dos franceses, estes, na América, adotavam sem hesitação os costumes dos selvagens.

A outros não escaparam, é certo, os benefícios de semelhante política tolerada e às vezes estimulada pela coroa francesa: Gaffarel chega a pretender que, se aos seus compatriotas fora dado fundar um estabelecimento sério no Canadá, deveram-no unicamente à fusão das raças. Dessa fusão sairia aqueles afamados coureurs de bois  norte-americanos, espécie de réplica setentrional dos mamelucos luso-brasileiros e que tiveram, como estes, papel decisivo na expansão geográfica da sua metrópole européia no Novo Mundo.

Não é, pois, de admirar se, também, no Brasil souberam os franceses disputar, e às vezes com melhor sucesso do que os próprios lusitanos, a simpatia e o apoio de certas tribos indígenas. No litoral do Rio Grande, como antes ocorrera no Rio de Janeiro e no Rio Real, e irá suceder depois no Maranhão, o número desses adventícios via-se constantemente engrossado pelo advento de novos contingentes, em muitos casos produto das guerras e dos naufrágios. Neste número contavam-se, por exemplo, os homens da expedição de Jacques Riffault, cujo nome, bastante estropiado, começa a aparecer na documentação portuguesa já durante as lutas da Paraíba: “Rifoles” é nome que lhe dá Feliciano Coelho, ao menos segundo a versão inglesa de Hakluyt, enquanto para Frei Vicente do Salvador ele é Monsieur Rifot. “Muitos franceses mestiçaram com as mulheres indígenas” na área do Rio Grande, escreve Capistrano de Abreu, “muitos filhos de cunhãs se encontravam já de cabelo louro: ainda hoje resta um vestígio da ascendência e da persistência dos antigos rivais dos portugueses na cabeleira da gente encontrada naquela e nos vizinhos sertões de Paraíba e Ceará.


A expedição vitoriosa de Manuel Mascarenhas Homem e Feliciano Coelho

Assim, não havendo material suficiente para suprir o esforço bélico português, Manuel Mascarenhas Homem, agindo agora de comum acordo com Feliciano Coelho e por ordem expressa da Coroa, deixou Olinda com sua tropa, a fim de ir alcançar no Cabedelo a frota enviada por D. Francisco de Sousa. Juntamente com intérpretes e com os jesuítas Gaspar de Samperes e Francisco de Lemos, que desempenhariam o papel de engenheiros militares, sem contar a gente que já ia na frota, o capitão-mor de Pernambuco efetuou por mar o restante do trajeto até a barra do Rio Grande. Por via terrestre continuaram as quatro companhias que trouxera de Olinda, comandadas respectivamente por Jerônimo de Albuquerque, seu irmão Jorge, Antônio Leitão Mirim e Manuel Leitão, unidas agora a uma quinta, recrutada ali na Paraíba e entregue ao mando de Miguel Alvares Lobo. Acompanhava-os o próprio Capitão Feliciano Coelho de Carvalho.

Os que foram por mar alcançaram, felizmente, o seu destino e, feitas as necessárias sondagens, puderam escolher terra adentro o lugar do futuro estabelecimento. Logo em seguida ao desembarque deu-se princípio a um forte de madeira com entrincheiramentos feitos de mangues. Os assaltos dos índios contrários, ajudados, ao que consta, de cinquenta ou mais franceses, começaram alguns dias depois, quando os expedicionários já tinham organizado os meios de defesa. De qualquer modo, encontraram-se em tamanhas agonias que, já Manuel Mascarenhas, pensava em largar o lugar, quando a chegada oportuna de uma embarcação do Reino, a urca de Francisco dias Paiva, forneceu-lhes o necessário para a sobrevivência.

A gente que saíra por terra com Feliciano Coelho mal transpusera as fronteiras da Paraíba, em 17 de dezembro de 1597, quando foi atacada pela varíola, de que os mais adoeceram, vendo-se obrigado retroceder. Só em abril de 1598, essa tropa, em parte recomposta, pôde aparecer junto ao forte dos Reis, que assim o denominara Mascarenhas, reforçando o reduto lusitano, já agora de novo em perigo de ser abandonado, devido as hostilidades que lhe inflingia o Petiguara.

À entrega do forte aos cuidados do mameluco pernambucano Jerônimo de Albuquerque, de quem Mascarenhas recebeu obediência, no dia de São João de 1598, deveu-se em grande parte a quietação que dentro em pouco iria prevalecer no estabelecimento. É muito provável, aliás, que os primeiros passos nesse sentido, já os tivesse dado o capitão de Olinda, pois sabe-se como no mesmo dia da entrega, do reduto a Albuquerque, fora dormir na aldeia do principal Camarão dos Petiguaras, possivelmente pai do herói, seu homônimo, das guerras holandesas. Anthony Knivet que, tendo participado da expedição do Rio Grande, pôde conhecer de perto esses índios e certificar-se de que muitos entre eles falavam o francês, e eram filhos de pai francês, conta o caso de um dos seus chefes que, vencido em batalha por Mascarenhas, fizera com este um trato pelo qual toda a sua gente seria batizada, passando a viver livremente entre os portugueses.

Como quer que seja, poucos, como Albuquerque, filho de uma índia Tabajara, bom língua, naturalmente afeito aos usos e ao trato dos naturais do país, encontravam-se em tão boas condições para levar avante a obra de apaziguamento. De seu valor, nesse particular, pode dar testemunho a carta que Gaspar de Sousa dirigirá em 15 de julho de 1516 ao Capitão-mor Alexandre de Moura sobre a conquista do Maranhão: “Tornarei a lembrar…”, reza esse documento, “que sem índios não se pode fazer guerra e que sem Jerônimo de Albuquerque não temos índios…”

Por ora, no entanto, sua missão é de paz, não de guerra, e no captar a boa vontade dos nativos irá pôr o mameluco todo o seu tato. Essa obra de paz, ele a obtém principalmente com a ajuda de um capitão e feiticeiro dos Petiguaras chamado Ilha Grande. O qual, estando preso entre os do fortim, é posto em liberdade por Albuquerque a fim de que se vá entender com outros principais de sua parcialidade, como o Zorobabé e o Pau Seco ou Biriaipi, homem da confiança de Jackques Riffault, mostrando-lhes os benefícios que alcançariam se se prestassem a ir viver em boa harmonia com os portugueses. A embaixada não poderia ter tido melhor sucesso, de sorte que a paz foi solenemente celebrada na Paraíba menos de um ano depois da posse de Jerônimo de Albuquerque. Realizado, o intento, tratou este logo de fundar, meia légua acima do forte e à margem direita do Rio Grande, a povoação que se chamaria do Natal.

Ao findar-se o século XVI é esta Capitania do Rio Grande a extrema da colonização portuguesa no Brasil. E se aqui já não havia massapés nem barro, mas sim areia solta, imprópria para a lavra de açúcares ou de outras granjearias – a pior terra do Brasil, na expressão de Frei Vicente do Salvador – boa apenas para pastos e gados, que dizer da região que mais para oeste e noroeste lhe ficava contígua? Pelo menos até o Jaguaribe passavam aqueles lugares por tão ásperos e tão escassa valia, que os mesmos índios, tirando algumas nações dos chamados tapuias, infensos à lavoura, mal as frequentavam. Por essa causa também os franceses raramente aportavam no Ceará, onde não encontravam gêneros para seus resgates, nem ancoradouros para seus navios.

Transposto, porém, o Jaguaribe, até onde parecia o solo arenoso e fraco, as mais terras daí por diante eram de madeiras de matas verdadeiras e várzeas muito férteis, onde se podiam fazer engenhos de água e de trapiches e cultivarem-se algodões e outros gêneros. Assim o há de dizer mais tarde, em carta endereçada a Sua Majestade, o futuro governador-geral D. Diogo de Meneses. É à administração do antecessor deste que se prendem os primeiros esforços visando à incorporação efetiva dessa área e do Maranhão à Coroa portuguesa. Nomeado em 1601 para a sucessão de D. Francisco de Sousa, e tendo chegado em abril do ano imediato a Pernambuco, de onde só em setembro de 1603 embarcará para a Bahia, Diogo Botelho, ainda durante sua estada em Olinda, mostrara seu empenho em ver promovido o descobrimento e conquista daquelas partes, compreendidas na demarcação portuguesa, embora cobiçadas por outros povos.

A boa oportunidade para semelhante empresa ofereceu-se com uma proposta de Pero Coelho de Sousa, morador antigo da Paraíba e cunhado de Frutuoso Barbosa, onde pedia licença para uma jornada à própria custa até o Maranhão. Reunidos a 23 de janeiro de 1603 nas pousadas de Diogo Botelho, a convite deste, Manuel Mascarenhas Homem, Feliciano Coelho de Carvalho, o desembargador Gaspar de Figueiredo, Diogo de Campos Moreno e o Capitão João Barbosa, para darem parecer sobre a aludida proposição, foi ela por todos aprovada , menos por Manuel Mascarenhas, que o deu em contrário.

Depois de despachados da Paraíba três barcos de munição e mantimento para a boca do Jaguaribe seguiu por terra Pero Coelho em pessoa, no mês de julho de 1603, à testa de sessenta e cinco soldados além de duas centenas de índios frecheiros. Fez-se a jornada sem maiores novidades até o local onde já se achavam os navios previamente expedidos. Dali feitas as pazes com os índios das redondezas, rumaram, em companhia de muitos destes, para a foz do Camocim, onde chegaram em janeiro de 1604 com o intento de prosseguirem até a serra de Ibiapaba, uma das escalas da marcha. 

Ao dia seguinte, porém, quando já se achavam quase ao pé da serra, viram-se assaltados de surpresa pelos índios tapuias do lugar, que ali os aguardavam em companhia dos franceses de Monsieur de Mombille, restantes muitos deles da expedição de Jacques Riffault, e estabelecidos entre aquele gentio de corso desde 1590 a 1594. Travou-se até a noite dura peleja, com breve interrupção quando um toque de corneta, a “trombeta bastarda” de que fala Frei Vicente do Salvador, fez-se ouvir da parte dos contrários, levando Pero Coelho a mandar-lhes um língua, francês de nascimento, o Tuim Mirim de alcunha, a parlamentar com eles, sem que dessas falas resultasse coisa de proveito. À noite retiraram-se os inimigos para um entrincheiramento que tinham no alto e que, atacado pelos portugueses, não pôde ser imediatamente expugnado, antes foi causa de sérias perdas entre eles.

Novas perdas lusitanas verificaram-se no outro dia, durante nova investida, mas desta vez com feliz resultado para a tropa de Pero Coelho de Sousa, que, além de ocupar a praça e os muitos mantimentos ali deixados, aprisionou uma dezena de franceses, que o capitão mandaria levar depois ao governador-geral juntamente com muitos gentios.

Acompanhado agora de outros inúmeros índios vencidos e apaziguados por interferência dos próprios franceses que com eles tinham pelejado, continuou Coelho até as beiradas do rio que muito mais tarde se chamaria Parnaíba. E teria ido até o Maranhão, segundo seu primitivo plano, se não achasse forte oposição dos seus, já cansados da jornada e faltos de mantimentos.

Deliberando, à visto disso, retroceder momentaneamente, deixou no Ceará uma guarnição de guarenta e cinco soldados portugueses e muitos índios, entregues aos cuidados de Simão Nunes Correia, um dos cabos de sua expedição, enquanto se dirigia à Paraíba, a fim de ir buscar a mulher e os cinco filhos, além de novos auxílios. O preparo da nova tropa consumiu mais tempo, no entanto, do que o desejado pelo capitão  e esperado pelos soldados de Simão Nunes. Quando  Coelho apareceu de volta com eles, acompanhado dos seus, no ano e meio depois da partida, achou-os em condições de insuportável miséria e quase desespero.

Alentou-os como pôde, acenando com a notícia de novos socorros à incipiente povoação e ao fortim de taipa chamado Santiago, que ali dissera construir Simão Nunes, deveria mandar Diogo Botelho. Os socorros anunciados, tinha-os expedido, com efeito, o governador, mas seu chefe, João Soromenho, achou de melhor alvitre divertir os homens na caça a índios, alguns já domésticos, que levaria a vender, do que cumprir a missão de que se vira incumbido: por esse motivo seria preso e seus índios mandados em liberdade às suas terras com mantimentos e ferramentas.

Quanto aos homens de Pero Coelho, desanimados de aguardar os reforços prometidos, já sem roupas e recursos para a subsistência, pediram ao capitão, e a obtiveram, sua transferência para algum lugar mais próximo da Capitania do Rio Grande. Acompanhando-os, tratou ele de fixar-se junto à margem esquerda do Jaguaribe, mas logo o desampararam ali, com enganos, Simão Nunes e os mais homens de sua companhia. Vendo-se abandonados com a família e dezoito homens, na sua maior parte mancos ou feridos – e só por isso, talvez, não tinham seguido o exemplo dos outros – além de um único índio, que os restantes também lhe fugiram, decidiu o capitão tornar, por sua vez, a terras já povoadas de portugueses.

A retirada  fez-se através de areias, pauis e salinas, entre lamentos dos caminhantes castigados pelo sol abrasador e pela sede constante, que a água amargosa das cacimba mal aplacava. Da fortaleza do Rio Grande, onde chegou Pero Coelho em  estado desolador, já desfalcado de alguns dos seus homens, entre eles o filho mais velho – “lume dos seus olhos e de sua mãe”, nas palavras de um cronista – que morrera durante a jornada, foi-se para a Paraíba, e dali para o Reino, a requerer seus serviços, no que se demorou muitos anos em Madri sem haver despacho, antes de encaminhar-se a Lisboa. Nunca mais regressaria ao Brasil.


A missão nas margens do Ceará

Frustrada essa primeira tentativa de conquista de terras reservadas à Coroa portuguesa entre o Rio Grande e o Maranhão, nem por isso renunciou Diogo Botelho ao intento de vê-las sujeitas à sua administração. O interesse que lhe merecera já em 1603 a proposta de Pero Coelho de Sousa, continuaria ele a acalentá-lo, apesar dos reveses e dissabores daquela primeira jornada do Maranhão. Em cartas, informes e petições que mandou à metrópole pelo Sargento-mor Diogo de Campos Moreno, não deixara de apontar para a importância do descobrimento projetado; sobre eles guarda a Biblioteca da Ajuda um escrito del-rei datado de 15 de março de 1605, chamando a atenção do Conselho da Índia para seu conteúdo.

E tanto que chegou o governador-geral à Bahia, depois de sua longa estada em Olinda, entendeu-se com os padres da Companhia para que despachassem uma sua missão à Ibiapaba a fim de ser preparado ou corroborado o descobrimento pela conquista espiritual dos tapuias do lugar, que em alguns relatos eram dados por mais acessíveis à catequese religiosa e ao governo civil do que os Petiguaras e os próprios Tobajaras. Nessa ilusão muitos ainda viveriam até se disseminar a notícia da morte cruel padecida, junto ao pé da serra, pelo Padre Francisco Pinto, um dos dois missionários idos da Bahia em janeiro de 1607. Vitimou-o a sanha dos terríveis Cararijus, que o golpearam, um ano depois, com um pau de jucá. Seu companheiro, o Padre Luís Figueira, conseguiu escapar nessa ocasião ao mesmo fim, graças, segundo consta, à solicitação de um moço catecúmeno, o qual, ouvindo o ruído dos matadores, lhe gritou em língua portuguesa: Padre, Padre, guarda a vida!

Figueira ainda se deteve por algum tempo no Ceará, depois de dar sepultura cristã ao mártir, lançando os fundamentos da aldeia a que chamou de São Lourenço, do dia em que a iniciara. Mas não se destinava a longa vida a missão das beiras do Rio Ceará. Mal se passara um mês, em setembro de 1608, recolheu-se ele ao Rio Grande num barco que, a pedido seu, lhe mandara Jerônimo de Albuquerque. Achava-se o padre consumido de trabalhos e fomes, convicto de que por então era ainda prematura a missão àquelas bandas em vista da distância, da escassez de água pelo caminho terrestre, do mau regime dos ventos, que tanto estorvava a navegação. E provavelmente da crueza do gentio de corso, em parte fomentada por franceses e seus familiares e compadres, que por todas as vias buscavam barrar o trânsito aos lusitanos, tanto que, segundo pode sugerir certa passagem de Frei Claude d’Abbeville, cronista capuchinho, foi por instigação deles que agiram os matadores do Padre Francisco Pinto. Como testemunho da fereza desses índios levou consigo o bordão que vitimara seu companheiro que, tinto de sangue, seria visto, mais tarde e ainda por muito tempo, entre as relíquias guardadas pelos padres no Colégio da Bahia.

Essa advertência, o infeliz sucesso da missão jesuítica, somando-se ao mau fim da jornada de Pero Coelho de que ao próprio capitão-mor, apesar de todo o seu denodo, se deve porventura alguma parcela de culpa, já que não se distinguira certamente pela amenidade, mormente no trato dos índios capturados e acrescentados à sua tropa, seriam de molde a retardar a definitiva conquista do Ceará. Grande, porém, era a valia atribuída à ocupação daquela cota, determinada e gorada já durante o reinado de D. João III, quando foi dividido o Brasil em donatarias hereditárias.

Coube encetá-lo, e o faria com melhor sucesso do que seu antecessor, ao governo de D. Diogo de Meneses, que, nomeado para substituir Diogo Botelho, já havia chegado e tomado posse do cargo, quando o Padre Figueira abandonava sua empresa cearense. Desde o dia em que aportou ao Brasil, e assim o dirá a Sua Majestade em carta de 1.° de março de 1612, D. Diogo julgara importantíssima uma nova jornada ao Maranhão. Naquela data já tinha mesmo enviado ao Rio Grande Diogo de Campos Moreno, o futuro autor do Livro que dá Razão do Estado do Brasil. E como fruto das observações realizadas pelo sargento-mor vai sugerir, para o caso de fazer-se a dita jornada, a repartição das terras que iam desde o Rio Grande ao Maranhão em três capitanias, por força de sua enorme extensão. Teriam de cota, a primeira setenta léguas e cada uma das outras sessenta, pouco mais ou menos, podendo denominar-se, respectivamente, Jaguaribe, Camocim e Maranhão.

Para a missão de espreitar o gentio e estabelecer comunicação entre eles e a gente do Rio Grande, foi incumbido Martim Soares Moreno, o sobrinho do sargento-mor do Estado, que estivera na jornada de Pero Coelho a fim de, nela servindo, bem aprender os usos e a língua dos naturais. Tão bem seguiu Martim as recomendações do tio que cedo conquistara a confiança e amizade dos índios, principalmente do chefe Jacaúna, irmão do Camarão, e isso muito lhe valeria para o êxito da nova incumbência.

Depois de instalar-se com o gentio junto ao Rio Ceará, chegou-lhe a notícia da aproximação de um navio de franceses e , deliberando tomá-lo, deixou manhosamente que os tripulantes desembarcassem para, em terra e desprevenidos, poder dar cablo deles. Dirigiu a operação o próprio Martim, entre seus índios, nu, de arco em punho, barba raspada e todo sarapintado à maneira deles. Apoderou-se ainda do patacho, que trouxeram os intrusos e mais de uma lancha. Tais proezas seriam o prelúdio do primeiro estabelecimento definitivo dos portugueses em terras do Ceará.

Informado do sucedido, o governador-geral, a pedido de Martim Soares e de um filho do principal do Jaguaribe, que foi mandado à Bahia por Jacaúna, providenciou imediata ida ao lugar de um capelão e dez soldados para residirem entre os índios. Fez-se assim um reduto, origem da atual Fortaleza, assim como uma igreja, onde o clérigo doutrinasse os moradores e ficaria esta sob a invocação de Nossa Senhora do Amparo.

No mesmo ano de 1612, em que definitivamente se assentam as bases da colonização do Ceará, deverá tornar ao Reino D. Diogo de Meneses. É, de fato, ao tempo de Gaspar de Sousa, seu sucessor no governo-geral, que se irá dilatar a área da colonização portuguesa, na costa norte, até os limites convencionados em Tordesilhas, para mais tarde ultrapassá-los. E se cabe dizer que transpostas as capitanias de Pernambuco e Itamaracá, durante logo tempo o extremo alcançado pela colonização lusitana nessas partes, as mais conquistas serão, ali, conquistas feitas aos franceses, o mesmo e naturalmente com maior realce dir-se-ia das lutas empreendidas pela posse da chamada França Equinocial.

Já agora não se trata, com efeito, de uma simples campanha contra náufragos, aventureiros ou entrelopos que agem quase sempre por conta de interesses privados, fiando-se em sua íntima familiaridade com os índios. Mais do que o da própria Guanabara, onde os invasores, quase desde o começo, se acharam internamente divididos pela rivalidade de crenças e ambições, ou enfraquecidos pelo tipo de recrutamento a que muitos foram sujeitos, o estabelecimento francês do Maranhão, posto que incipiente e ainda mal consolidado, apresenta-se como um corpo relativamente coeso, fortalecido pela chancela real, que já tem poder bastante para aplacar as querelas privadas e até mesmo as diferenças religiosas. Note-se a este propósito como entre as mostras de piedade, devoção e zelo que o capuchinho Claude d’Abbeville admira em Henrique IV está a circunstância de ter Sua Majestade Cristianíssima, antes de ocupar Charles des Vaux na empresa maranhense e sabendo-o da facção dos reformados, cuidado, como bom pastor, de atraí-lo para o grêmio da Santa Igreja Romana.

Situado além da órbita de ação dos portugueses do Brasil, tanto pela interposição de terras inóspitas e tribos bravias, como ainda, e sobretudo, pelo sistema de ventos, geralmente adversos ali à comunicação marítima com o resto da colônia, que só se podia efetuar sem graves rasntornos entre os meses de maio e agosto, o Maranhão deveria parecer, em 1612, muito mais acessível à iniciativa colonial de uma nação pujante e em fase de expansão do que fora o Rio de Janeiro em 1555.

Na Informação do Brasil e suas Capitanias escrevera Anchieta, em 1584, que já não ficava então trato aos franceses “senão no Rio da Paraíba, 18 léguas de Pernambuco para o norte, onde ajudam os índios contra os portugueses e lhes fazem muito mal…” Mesmo esse ponto de apoio para seu antigo e proveitoso comércio com os naturais já lhes fora retirado pela progressão da conquista lusitana. Desalojados agora de toda a cota entre o Rio Grande e o Ceará, impunha-se com urgência aos franceses, se não quisessem perder pé nestas partes do Novo Mundo, criar uma colônia na faixa restante, em direção ao Amazonas, só povoada a esse tempo de tribos esparsas e aparentemente dóceis.


Referência Bibliográfica:

Buarque, S. História Geral da Civilização Brasileira. I. A Época Colonial 1. Do Descobrimento à Expansão Territorial. 7. ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 190-203

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