França Antártica: quando a França tentou colonizar o Brasil (1555)

Antecedentes da presença francesa no Brasil colonial

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Corsário francês

O início da colonização portuguesa do Brasil foi em grande parte determinado pelo empenho da Coroa lusitana em acabar com as atividades dos aventureiros e corsários da Bretanha ou da Normandia, prejudiciais ao seu monopólio. Antecedendo tanto aos ingleses quanto aos holandeses em suas investidas sobre o nosso litoral, não se limitam os franceses, como os outros, à prática da pirataria e do contrabando. Em mais de uma ocasião, conseguem pôr pé firme na costa do Brasil, contando para isso com a fidelidade, que souberam captar, das tribos tupinambás, faltando pouco para se fixarem nelas definitivamente.  Durante anos, notou com precisão Capistrano de Abreu, ficou indeciso se o Brasil pertenceria a portugueses ou a franceses.

Na primeira metade do século XVI, é registrada frequentemente a presença de tais traficantes desde a boca do Amazonas até a costa catarinense. Os lugares mais procurados ficam, porém, entre as áreas abundantes em pau de tinta, que se alongam do Cabo de São Roque ao Rio Real. Na Paraíba chegam a infiltrar-se no meio dos Pitiguaras locais, mesclando-se a eles: fortalecidos com esse apoio, lograrão os índios, por longo tempo, desafiar os portugueses e seus aliados de Itamaracá e Pernambuco. Em Sergipe d’El-Rey igualmente, hão de prosseguir até fins do século as abordagens e acordos das naus francesas: só a expedição de Cristóvão de Barros colocará um desfecho à farta colheita que ali faziam do pau-brasil, algodão e pimenta da terra.

Os mais atrevidos levam suas incursões até as capitanias situadas ao sul da Bahia de Todos os Santos. Gaspar Gomes, morador em Ilhéus, vê-se bloqueado no Rio de Janeiro, em 1551, durante dois meses e meio, por uma nau de de franceses, que só sairá depois de carregar tranquilamente cerca de sessenta moios (medida da época) de pimenta e alguns toros de pau-brasil. Escrevendo quatro mais tarde ao rei, Francisco de Porto Carrero, o sucessor de Pero de Góis na capitania-mor da costa, dá conta dos aprisionamentos que faziam os franceses no Brasil, de como tomavam o melhor e agiam impunemente e sem dissimulação. Ainda quando deixassem de construir feitorias permanentes, à maneira dos portugueses, preferindo negociar diretamente com os índios, nem por isso era pequena a ameaça por eles representada.

Contudo, a fundação de estabelecimentos fixos deveria, no correr do tempo, representar uma consequência natural por causa daquelas atividades. No Cabo Frio, onde as matas de pau-brasil não são menos notáveis do que no Nordeste, e onde, por volta de 1548, constava que vinham a coletar sete ou oito naus francesas cada ano, tentariam construir um fortim, que todavia não estava destinado a durar muito.


Convencendo a Coroa Francesa de que valeria a pena a invasão

 

O comandante da invasão, o vice-almirante Nicolas Durand de Villegaigon, teve que obter o admissão e amparo de Coligny (almirante francês e líder protestante) e, através deste, da própria Coroa de França. Não seria extremamente difícil despertar o interesse do almirante mencionando possibilidades de um asilo onde, livres, enfim, das graves perseguições que os ameaçavam, os adeptos da religião reformada pudessem praticar tranquilamente seu culto. As primeiras resistências do soberano foram vencidas, não somente pelos poderosos argumentos de Coligny em favor da expansão ultramarina da monarquia francesa, como também pelo apoio que o projeto parece ter ganho de parte de alguns chefes da facção adversa ao almirante. O próprio Cardeal de Lorena , que veria em Villegaignon, antes de tudo, o cavaleiro da Ordem de Malta, insuspeito, por isso mesmo, ao catolicismo, é citado entre os que mais fervorosamente advogaram em seus projetos.

O bom crédito que parecia merecer, o plano, amparado igualmente pelos campeões de dois partidos antagônicos, deve ter contribuído de modo decisivo para a resolução final de Henrique II, favorável ao estabelecimento. O fato é que, além de autorizar a partida de uma expedição francesa rumo à costa do Brasil, confiou a Villegaignon, seu chefe, duas boas e grandes naus bem artilhadas, dotadas de munições e outras coisas necessárias, dez mil francos ao todo para as despesas de transporte do pessoal, além de abundante artilharia, pólvora e tudo quanto fosse preciso para a construção e defesa de um forte. Além desses auxílios, relacionados por Jean Crespin em sua História dos Mártires perseguidos e mortos pela Verdade do Evangelho, prometeu ainda Sua Alteza a Villegaignon facilidades para o recrutamento de operários e marinheiros, assim como o título de vice-rei da nova conquista, caso alcançasse bom êxito.


Perfil de Villegaignon

É num ilhéu da Guanabara, que a 10 de novembro de 1555 desembarcará Nicolas Durand de Villegaignon com seus companheiros, para criar uma colônia, pomposamente chamada França Antártica. Depois de brilhante carreira militar tendo já lutado em Argel contra os mouros, na Hungria contra os otomanos, no Piemonte contra os imperiais, na Escócia contra os ingleses e de novo contra os turcos, em Malta, esse cavaleiro, feito vice-almirante da Bretanha, não encontrara, de parte de Henrique II, o apoio esperado numa  rivalidade que teve com o governador de Brest, em 1553. Ferido assim no amor-próprio, e contaminado, ao que consta, pelo entusiasmo que animava certa relação de um viajante que correra estas partes do Brasil, dispôs-se Villegaignon a tentar aqui uma empresa de colonização capaz de satisfazer seu gosto de aventuras e grandezas.


Entre católicos e calvinistas: a difícil decisão de Villegaignon na hora de recrutar

Henrique II da França

Estimulados pelo interesse que o plano pareceu inspirar a Henrique II, armadores normandos e bretões associaram-se a ele de bom grado, certos de que o lucro até então retirado das suas especulações mercantis com o Brasil se multiplicaria, desde o instante em que as viagens de exploração, a que de longa data se achavam afeitos, fossem convertidas numa colonização regular, bem abrigada sob a bandeira do rei. Por essa forma, ficaram as equipagens prontas para a expedição, e foi o primeiro passo para a realização do empreendimento. Este só ficaria completo, no entanto, depois da adesão de colonos dispostos a constituir, na futura França Antártica, uma radiante réplica de seu lar europeu.

Villegaignon teria um meio simples para vencer essa dificuldade, se desse pública demonstração de simpatia pelo credo calvinista. Não faltaria neste caso, entre os reformados franceses e de outras terras, quem se dispusesse, em sua companhia, a vir buscar deste lado do Oceano a terra prometida aos justos, então sob a ameaça de uma perseguição sem tréguas. Tal solução representaria, no entanto, um desafio ao partido católico dominante, que lhe fora de tamanha assistência quando precisava alcançar alcançar o favor da Coroa.

Em tais circunstâncias, pareceu-lhe melhor de se fazer, ao menos no primeiro momento, fugir a qualquer profissão de fé muito nítida, que lhe alienasse o apoio de uma das duas facções. E como essa prudência não desse todos os resultados que desejava, ocorreu-lhe proceder a um recrutamento entre criminosos, nas prisões de Paris, Ruão e outras cidades do Reino, com o que pôde completar a companhia de cerca de seiscentas pessoas que, a 12 de julho de 1555, largou o porto do Havre em dois navios.

Não representavam os condenados, assim atraídos para uma empreitada cheia de perigos, a melhor sementeira que se poderia desejar para o progresso imediato da nova colônia. Quando se considera que esses emigrantes eram, em regra, gente sem família, ou que não levavam as próprias mulheres, se as tinham, pode deduzir-se que eram obstáculos importantes à prosperidade da nova colônia.


A escolha do lugar onde desembarcar e as dificuldades dos colonos

A ilha a que os naturais da terra chamavam de Serigipe, hoje chamada de Ilha de Villegaignon, escolheu-a o francês para a sede inicial do estabelecimento. Ali fez edificar uma fortaleza de madeira, o forte de Coligny, reservando a escolha de Henrriville para a povoação que já projetava fundar na terra firme vizinha. A maior segurança dos moradores era naturalmente facilitada pela grande rocha de superfície plana à entrada do porto, e que, segundo uma versão menos provável, divulgada por Jean de Léry, fora o primeiro desembarcadouro dos expedicionários.

As cautelas e providências adotadas por Villegaignon na escolha do lugar não eram decisivas, no entanto, para o bem-estar dos europeus recém-vindos. O duro trabalho a que se deveram submeter não parecera feito para aqueles homens, obrigados, em muitos casos, a socorrer-se do auxílio dos índios da terra, irritados com o trabalho regular e sistemático, sem expectativa de pronta recompensa. A necessidade em que se viram os colonos de privar-se aos modos de vida que lhes eram mais familiares devia representar para muitos invencível tortura. O primeiro contato com a nova terra já bastara para despertá-los do sonho em que tinham sido nutridos, de que achariam aqui notável fortuna de mantimentos. Refere Jean Crespin a estranheza e ao desalento que logo se apoderara daquela gente quando forçada a viver de raízes e frutas, em lugar do pão de trigo, assim como de água de cisterna, em vez de vinho, e tudo em porções tão mesquinhas, acrescenta o cronista, que dava pena, por cada quatro pessoas tinham de contentar-se com aquilo que normalmente caberia a uma.

Nem isso, nem o ardor da temperatura, nem as doenças de que muitos foram assolados parecia motivo para se suavizar o nível de intensidade dos esforços exigidos para a construção da fortaleza e das habitações. Mal se levantava o sol, eram obrigados os homens a ir britar pedras, cortar toros de madeira, carregar terra, num ritmo que crescia dia a dia, ante  o medo, de que todos estavam tomados, de algum assalto por parte dos portugueses ou das tribos hostis.


Villegaignon se desentende com o intérprete e é alvo de uma conspiração que planejava sua morte

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A irritação generalizada acirrou-se ainda mais devido ao grave incidente entre o comandante e um normando que vivia amancebado com uma índia. Movido pelo poder de autoridade ou pela tolerância com o ideal devoto adotado pelos seus companheiros calvinistas, Villegaignon cometeu a imprudência de exigir do intérprete que se casasse segundo as leis cristãs ou abandonasse de todo o estado de pecado em que vivia, sob pena de morte. Irritado com a imposição, não teve dificuldades o intérprete em recolher partidários entre alguns dos colonos que já pensavam em desertar para o meio dos índios, onde poderiam levar sem receio uma vida solta e ociosa, ou mesmo abrigar-se em alguma das povoações de portugueses.

Surgia, já agora, a possibilidade de um recurso extremo: o assassínio de Villegaignon e de seu estado-maior, que seria partilhado entre os conspiradores. Para o bom sucesso da ideia era mister, porém, aguardar a partida dos navios, pois temia-se, talvez com razão, a fidelidade dos marinheiros ao chefe. A partida se deu, finalmente, a 4 de fevereiro de 1556, mas o pronto descobrimento do plano pelo grupo de soldados escoceses de que se cercava Villegaignon como de verdadeira guarda pessoal, teve o efeito de frustrar sua execução.

Quatro dos principais acusados foram logo detidos e algemados na presença de todos, para que o exemplo desse rigor atemorizasse os restantes. Um dos presos não suportou por muito tempo o castigo: logo ao outro dia arrastou-se até a beira d’água, onde veio a morrer afogado. Dos outros três um morreu estrangulado e dois forçados a escravidão. É pelo menos o que consta de uma das cartas conhecidas de Nicolas Barré, o mesmo companheiro de Villegaignon que, oportunamente advertido pelos soldados escoceses, comunicara ao chefe os intentos criminosos daqueles homens. Quanto aos restantes, já desiludidos pela punição que sofreram seus cúmplices, passaram agora a trabalhar com mais afinco e dedicação.

O intérprete normando, promotor de todo o movimento, conseguira evadir-se em tempo. Passando a viver no meio dos índios, juntamente com outros vinte a vinte e cinco intérpretes, buscou meios e modos de envenenar as boas relações existentes de início entre os mesmos índios e os franceses. Suas intrigas tiveram algum efeito, sobretudo em seguida a uma peste que se alastrou subitamente entre os naturais e que, segundo depoimentos contemporâneos, chegou a matar cerca de oitocentas pessoas. Não seria difícil convencer as vítimas de que o mal,provavelmente, estranho e ignorado até então nestas partes, fora obra de Villegaignon, tanto que um grande clamor se levantou logo contra os colonos. A salvação destes parece ter resultado principalmente de não se terem fixado na parte continental, em lugar mais acessível aos ataques, que poderiam acelerar a ruína de seu estabelecimento.


A fantasia do “bom selvagem” entre os humanistas franceses

Aos poucos, porém, a hostilidade dos Tupinambás da Guanabara – os tamoios dos cronistas portugueses – parece ter cedido ao passo que o entendimento com esses europeus lhe poderiam resultar grandes proveitos nas suas lutas constantes contra os portugueses e tribos rivais: Tupiniquins, Goitacás e Maracajás. Da parte de Villeigaignon, os sentimentos que lhes inspiravam os indígenas não seria dos melhores, a julgar pelo que se lê em uma das suas cartas a Calvino, onde os apelida de gente feroz e selvagem, estranha a toda cortesia e humanidade, diversa em tudo dos europeus, sem religião, nem virtude ou honestidade, ignorante do que é reto ou injusto: “assim, acrescenta, vinha-me à mente a ideia de que tínhamos caído entre bichos com figura humana“. Por outro lado, entre os humanistas que, no Velho Mundo, alheio aos problemas que perseguiram os colonos da rança Antártica, se deleitavam constantemente na imagem clássica das Idades de Ouro desaparecidas ou corroídas pela civilização, essa humanidade primitiva surgia, não aro, tingido com as cores de sua esperança e nostalgia. A apóstrofe de Ronsard ao “douto Villegaignon”, no Discours contre la Fortune, é um convite para que não manchasse, com o engenho e a arte dos europeus, a felicidade daquela gente sem malícia que habitava as margens da Guanabara, comparável à que, segundo os poetas, tinham desfrutado os primeiros homens:

“Ils vivent maintenant en leur âge doré” (Vivem agora a sua idade de ouro…)

A fantasia poética não deixa de expressar neste caso o confuso sentimento, capaz de alastrar-se até entre pensadores como um Montaigne e um Charron, servindo de ponto de partida para as utopias renascentistas, de que fora da Europa e de seus vícios ainda se poderia encontrar ou edificar uma sociedade nova e imaculada. E em outro poema llamenta, com efeito, as longas desgraças que tinham mudado o ouro antigo em prata e a prata no moderno ferro assassino, manchando todo um continente:

Europe que les Dieux

Ne daignent plus regarder de leurs yeux

Et que je fuy de bon coeur sous ta guide,

Laschant premier aux navires la bride,

Et de bon coeur à qui je dis adieu

Pour vivre heureux en l’heure d’un si beau lieu

Tradução: Europa sobre a qual os Deuses / Não se dignam mais baixar os olhos / E da qual, por ti guiado, fujo de bom grado,  / Aos navios entregando o rumo, / E à qual de bom grado digo adeus / Para viver ditoso num lugar tão belo.

Se para muitos, e já se viu como o próprio Villegaignon estaria nesse campo, o contato e convívio dos índios só poderia afetar de modo lamentável os imigrados europeus, suas instituições e suas crenças, para outros, corromperiam, ao contrário, a paradisíaca inocência daqueles nobres selvagens, segundo a célebre expressão que, no entanto, só seria cunhada muito mais tarde.

Era orientação política da Coroa da França, para a colônia, a exclusão de homens que tivessem relações com índias, essas “cadelas selvagens”, na expressão de Barré. Relações essas que se davam ali mesmo nas vizinhanças da Guanabara, como por exemplo a do intérprete que já havia de ter filhos mestiços, semelhante ao de tantos portugueses como João Ramalho, Diogo Álvares, Jerônimo de Albuquerque, etc. E tudo faz crer que a eventual posição dessa comunidade em favor da religião reformada só poderia contribuir para que ainda mais se acentuasse uma tendência semelhante. Seria fácil a homens familiarizados com as Sagradas Escrituras evocar os muitos danos que, para o povo de Israel, tinham decorrido de sua comunicação com os gentios, e não faltará quem se recorde das palavras do Senhor no Levítico, onde ordena que se não juntem no mesmo campo animais de diferente espécie, nem se plantem sementes de mistura ou se usem vestidos com desvairadas cores.


A salvação dos calvinistas perseguidos era a França Antártica

 

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Ingleses, franceses e holandeses no Novo Mundo.

A Villegaignon fora possível, antes de se acenderem com mais vivacidade as sangrentas disputas religiosas que iam dilacerar seu país, guardar para a colônia uma aparência de neutralidade, igualmente benévola a ambas as facções em contraste (católicos e protestantes). Em 1555, o ano em que Launay e François de Morel chegaram a Paris, para ali estabelecerem novo templo obediente às instruções de Genebra, acha-se, por assim dizer, em sua fase embrionária a expansão dos agrupamentos protestantes na França.

O acréscimo, porém, dessas comunidades, cujo número e atuação iriam alarmar o próprio Calvino, conforme o atesta a carta que dirigirá aos seus discípulos de Montélimar, não vai esperar muito tempo. E com a expansão, o perigo de uma campanha sem tréguas da própria Coroa contra os luteranos, como ainda eram indiscriminadamente chamados os adeptos do credo reformado, anuncia-se cada vez mais intenso. O recurso à emigração para terras longínquas oferecia-se, principalmente agora, como o caminho mais seguro aos que pretendessem seguir esse credo com maior dificuldade.

É um engano a que muitos têm deixado julgar que o estabelecimento da França Antártica representou uma iniciativa de calvinistas. Se o apoio dado por Coligny deixava isso aparente, já se viu que a empresa colonizadora não resultou e não dependeu apenas de tal apoio. Protestantes convictos, que se alistaram na leva trazida à Guanabara por Villegaignon, foram La Chapelle, de Boissi, além de Thoret e de Nicolas Barré. Mas a par desses viriam então, e mais tarde, muitos católicos , leigos ou eclesiásticos, como André Thevet, que publicou mais de um escrito sobre as coisas notáveis deste Novo Mundo, ou como Bois-le-Comte, o sobrinho de Villegaignon, sem falar no célebre Jean Cointa, que, não obstante, se verá depois em dificuldade com os inquisidores.

O apelo à igreja de Genebra, feito diretamente por Villegaignon, ou através de Coligny, pareceu impor-se ao vice-almirante desde os primeiros tempos de sua estada no Rio de Janeiro. Os mesmos navios que, de volta à Europa, sairiam de Guanabara em fevereiro de 1556, serão portadores de alguma petição nesse sentido, embora não haja provas de que, já então, o Pay Colas (pai Nicolas) dos tamoios mantivesse correspondência pessoal com João Calvino. O certo é que em setembro desse ano de 56 iam deixar Genebra os chefes da missão incumbida de erigir em refúgio ideal dos protestantes a chamada França Antártica e, ao mesmo tempo, iniciar a pregação do Evangelho aos pobres “selvagens”. Eram eles Philippe de Corquilleray, Pierre Richier e Gillaume Chartier, seguidos de mais onze companheiros ou auxiliares.

Essa expedição tem apenas o privilégio de marcar uma data, mas data sem consequências, na história da expansão mundial do protestantismo: é cronologicamente a primeira tentativa de ação missionária empreendida por uma das igrejas reformadas entre os povos pagãos (a segunda, de origem luterana, só ocorrerá três anos depois, quando Gustavo Vasa autoriza a evangelização dos lapões do norte). Na história do Brasil, ela tem, tão somente, o efeito de acentuar as divisões funestas que desde o início tinham marcado a experiência colonizadora de Villegaignom, precipitando seu desfecho catastrófico.

É de acreditar, no entanto, que, embora em menor número do que os seguidores do vice-almirante em sua viagem inicial, esses colonos embarcados em Honfleur no outono de 1556 recrutaram-se em melhores condições. De Coligny, que Corquilleray e seus homens foram encontrar em Chatillon, receberá a expedição todo apoio moral e mesmo alguma ajuda pecuniária. Do almirante escreverá Pierre Richier a Calvino que é o verdadeiro “guia e chefe” da empresa transoceânica. Em Paris, tinham-se somado alguns correligionários aos ousados apóstolos de Genebra. Entre a gente que vinha para o Brasil já encontravam agora uma mulher e várias meninas, as primeiras que apareceram vestidas na baía de Guanabara, para grande pasmo dos índios. Acompanhavam-nos ainda cinco meninos de pouca idade, com o propósito expresso de aprender a língua dos Topinambous, de modo a poderem servir como intérpretes aos futuros imigrantes

No Brasil, onde aportaram em fevereiro de 1557, os zelosos calvinistas não se cansavam de contemplar a magnificência do cenário que lhes fora reservado, agradecendo a suma bondade do Criador de todas as coisas, que assim lhes destinava uma paragem digna da alta missão a que se devotaram: a pregação da palavra divina e a restituição do cristianismo à sua pureza primitiva. Um dos quatorze apóstolos vindos de Genebra, Jean de Léry, escreverá depois, refletindo porventura o ardor de seus correligionários e companheiros, que aquele “rio” de Guanabara, ainda que as montanhas das redondezas não fossem tão altaneiras como as que circundam o grande e espaçoso lago de Genebra ou de Lemano, “contudo a terra firme, envolvendo-o de várias partes, muito se assemelha àquele lugar quanto à situação”. E na própria expressão que traduziu para eles os nomes indígena e português da majestosa baía – “Guanabara, autrement dite Geneuvre en l’Amérique” – não entraria algum vago eco da cidade sagrada?

A acolhida que a princípio lhes reserva o vice-almirante não poderia ser mais animadora. Villegaignon mostra-se efetivamente um pai e irmão dos recém-vindos: são as próprias palavras com que inflamadamente falam Richier e Chartier escrevendo a Calvino, três semanas após o desembarque. Já, no dia da chegada, exigira que se pregasse publicamente a palavra de Deus, e na semana seguinte participara em pessoa de um serviço da Sagrada Ceia.

Se o futuro Caim da América não tinha abertamente abdicado da fé católica, não há dúvida que seus atos e atitudes eram, em muitos pontos, os de um converso aos ideais da Reforma anunciados de Genebra. Agora não hesitava em dirigir-se por escrito a Calvino, rejubilando-se com a vinda dos irmãos na Fé, que o vinham libertar da situação a que se vira obrigado, pois tomava ações de magistrado e, em alguns casos, até de ministro da Igreja. Muito temia pela sorte dos colonos que, no convívio inevitável dos naturais, bem poderia cair na apostasia. Desse medo, acrescentava, “poupou-me a vinda dos irmãos”. No fecho da carta ditada, que endereça ao reformador, escreve do próprio punho estas palavras, entre outras: “Queira Nosso Senhor Jesus Cristo defender-vos de todo mal, assim como aos vossos companheiros, fortalecendo-vos com seu espírito e prolongar por muito tempo vossa vida para a obra de sua Igreja…”


Desentendimentos religiosos na colônia

Se, em todas as aparências, Villegaignon fazia por conformar-se com os preceitos de Calvino, bem depressa se levantaria nele o fervor  antigo do cavaleiro de Malta. No processo que Jean Cointa, uma das testemunhas, mandará fazer depois o bispo português, D. Pedro Leitão, assim se resumem os graves sucessos ocorridos na colônia francesa do Rio de Janeiro:

Perguntado que pessoas eram as que estavam na dita fortaleza do Rio de Janeiro, onde ele estava, que tinham ou seguiam a dita opinião do dito João Calvino, disse que eram dez ou onze homens naturais de Genebra, que vieram com eles na dita armada, e mais o dito capitão do Rio de Janeiro monsenhor de Villegaignon os quais se chamam, a saber, Felipe de Corquilleray e Jean de Léry e Mathieu Verneuil e que lhe não lembravam os nomes dos outros, digo dos mais, e que no princípio o dito monsenhor de Villegaignon seguia em todo a dita opinião de João Calvino e que daí a certos meses tendo dúvida se o pão havia de ser fermentado ou não e se o vinho, se lhe havia de botar água ou não, com o parecer dos mais mandou que se não fizesse a ceia até vir resposta de França das cartas que sobre isso tinham escritas”.

Pode-se reconhecer por esse testemunho, em poucas palavras, a causa ou o pretexto da crise que lançou uma divisão sem remédio entre os colonos franceses da Guanabara.

A crise surgira, com efeito, já no Pentecostes de 1557, quando nasceram dúvidas sobre se era lícito colocar água ao vinho na cerimônia da consagração. Villegaignon optava pela afirmativa, invocando a tradição, particularmente São Cipriano, São Clemente e os sagrados Concílios. Pierre Richier, valendo-se das Escrituras, contradizia firmemente essa opinião. A controvérsia estava lançada e degenerou logo em violentos debates sobre a natureza da presença de Cristo nas espécies da Eucaristia. Pouco mais tarde, baseando-se ainda dessa vez na tradição, Villegaignon procurou refutar publicamente Richier durante a celebração de um casamento. Para evitar que fosse prolongado ainda mais o debate, ficou decidido que Gillaume Chartier, um dos companheiros de Corquilleray, iria a Genebra aconselhar-se com Calvino. O próprio vice-almirante estaria disposto a aceitar a arbitragem do reformador, mas enquanto não chegasse a resposta, Richier ficava impedido de administrar os sacramentos ou de aludir em sermões aos assuntos que deram causa à controvérsia.

Aos poucos foram-se avolumando esses desentendimentos e Villegaignon pretendeu impor a qualquer preço sua autoridade, desmandando-se em atos que fecharam o caminho a qualquer reconciliação. Thoret, calvinista confesso, a quem fora confiado o comando do forte de Coligny, viu-se publicamente censurado por ele. Revoltado com a humilhação sofrida, socorreu-se de uma pequena jangada indígena de três paus para ir refugiar-se num navio bretão que se encontrava a trinta léguas do porto. O próprio Corquilleray, interpretando o pensamento dos correligionários,  procurou Villegaignon e fez-lhe ver que, tendo ele rejeitado o Evangelho, achavam-se os seus companheiros desligados de qualquer obrigação de sujeitar-se às suas ordens.


La Briqueterie: o asilo dos refugiados

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A vista desses fatos, o convívio entre as facções em que se dividia a colônia tornara-se cada vez mais insustentável, agravando-se com as notícias, bem ou mal fundadas, de insubordinação e revolta de certos elementos. Em fins de outubro o vice-almirante, depois de submetê-los a uma série de vexames e padecimentos, consentiu que Corquilleray, Richier e seus adeptos deixassem a ilha, o que fizeram, indo refugiar-se num lugar da terra firme chamado La Briqueterie, onde já se tinha estabelecido uma povoação de franceses dissidentes do chefe.

Durante pouco mais de dois meses viveram aqueles homens no rústico asilo, à beira da baía, faltos de todas as comidades, inclusive do vinho de uvas para as suas cerimônias religiosas, comendo e bebendo com os índios e ao modo destes que, aliás, no dizer de Léry e Crespin, se mostraram bem mais humanos do que os franceses da ilha. Villegaignon em particular. Certo dia surge na Guanabara um velho navio normando, com o casco já meio carcomido pelos gusanos, a fim de carregar pau-brasil, pimenta,  algodão, macacos, papagaios e outros produtos da terra. A pedido dos fugitivos, concordou o capitão em transportá-los de volta, mediante pagamento de seiscentas libras tornesas (antiga moeda de prata).

Devido, porém, ao excesso de carga, esteve a embarcação na iminência de afundar quando apenas se tinha afastado  da costa. Feitos os reparos de emergência, discutiu-se sobre se convinha prosseguirem a viagem ou ficarem os passageiros de qualquer modo na Guanabara. A maior parte preferiu o primeiro conselho, mas cinco dos calvinistas deliberaram pedir barca a fim de tornarem ao Rio de Janeiro.

De início acolheu-os bem Villegaignon. Pouco a pouco, no entanto, firmou-se em seu espírito a suspeita de que aqueles homens teriam sido enviados por Pierre Richier e Corquilleray para suscitarem um levante entre os índios, enquanto na Europa se preparassem reforços visando à implantação definitiva do credo calvinista na América. Tratou então de submeter todos o a um rigoroso questionário que versou sobre pontos de teologia relativos aos sacramentos. E como três dos fugitivos se mostraram bastante obstinados no apego às opiniões dos reformados, condenou-os por hereges, mandando torturá-los e, depois, lançá-los ao mar. Quanto aos outros dois, que lhe pareceram menos perigosos, determinou que continuassem sujeitos às suas ordens.


Villegaignon mal visto pelos católicos e reformistas

Em França, as primeiras notícias sobre os dissídios teológicos no estabelecimento da Guanabara não pacificaram o entusiasmo suscitado principalmente entre protestantes pelas versões anteriores acerca do bom sucesso da empresa. O próprio Calvino mostrara-se, de início, menos impressionado pelas denúncias de Chartier, porta-voz dos homens de Genebra expedidos para o Brasil, do que pelos protestos de fidelidade e zelo que lhe mandara o senhor de Villegaignon. Não parecia loucura, por esse tempo, a ideia de uma expatriação voluntária e em massa dos protestantes perseguidos no Velho Mundo para esse decantado asilo ultramarino, e em 1557 já se cuidava seriamente na ida para a França Antártica e de um grupo de setecentas ou oitocentas pessoas em duas urcas flamengas especialmente fretadas com esse objetivo.

O regresso, porém, de Corquillery e sua companhia, após os rumores sobre o martírio e morte padecidos pelos três calvinistas, por ordem de Villegaignon, teriam papel saliente no desfecho final da iniciativa colonizadora. Embora, logo em seguida ao suplício daqueles teimosos protestantes, tivesse ele julgado poder conter finalmente sua gente no temor e obediência, o regime de terror instalado pelo vice-almirante provocava descontentamentos tanto na ilha de Coligny quanto nas áreas próximas do continente. Por outro lado, as informações, que vinham do Velho Mundo não eram tranquilizadoras para o chefe da expedição. Detestado agora pelo partido protestante, era ele suspeito a muitos católicos que o acusavam de querer impor aos seus subordinados um heresia nova, independente de Roma, assim como de Calvino ou de Lutero.

Nessas condições, pareceu-lhe melhor embarcar para a Europa a fim de melhor defender-se dessa e de outras imputações. Ora, para essa espécie de deserção precipitada, ocorrida em fins de 1558, não poderia escolher pior momento. Os colonos que ainda restavam no Rio de Janeiro, desfalcados agora em número e coesão, iam ficar quase à mercê dos terríveis Maracajás, o “gentio do Gato”, amigos e aliados dos portugueses. Esse termo era usado devido o nome Maracajá se referir a “gato bravo”. Além disso, a fraqueza de D. Duarte da Costa, o segundo governador-geral do Brasil lusitano, que tivera de assistir impotente à intrusão dos franceses em terras da Coroa de Portugal, acabava de suceder  enérgica habilidade de Mem de Sá que, em seu programa administrativo, incluíra o desalojamento dos franceses de todas as terras do senhorio do rei.


Mem de Sá parte para o ataque

Ilustração do ataque português ao Forte Coligny.

Em novembro de 1559 chegava efetivamente à Bahia de Todos os Santos a armada sob o comando do Caitão-mor Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha, destinada a ir combater os franceses na Guanabara. Apoiando-se na infçuência do novo bispo, D. Pedro Leitão, e dos jesuítas tratou ogovernador de reunir, ali na Bahia, todo o gentio de guerra que pudesse dispensar sem prejuízo para a defesa da sede da administração. Ao mesmo tempo escreveu à Capitania de São Vicente, solicitando ajuda em homens e armas, que deveriam encontrar-se na entrada da barra do Rio de Janeiro em dia previamente ajustado, a fim de se encontrarem com as forças da metrópole.

Não foram certamente de pouco proveito os informes que, nessa emergência, prestou a Mem de Sá o francês Jean Cointa, um dos antigos companheiros de Villegaigno, agora divergindo com este, e que se dizia senhor de Boules, além de doutor da Sorbonne. O qual tendo anteriormente saído em companhia de alguns franceses  e numerosos índios aliados para um assalto a São Vicente, achara meio de passar-se para o lado dos portugueses, advertindo-os do ataque em perspectiva e ajudando-os depois, eficazmente, a defender a Bertioga. Na Bahia, para onde o despacharam, o desertor deu notícias pormenorizadas ao governador-geral sobre as condições de defesa da ilha de Coligny, prestando-se mesmo a acompanhá-los para a expugnação do reduto.

A armada em que Mem de Sá partiu para o Rio de janeiro em janeiro de 1560 constava de duas naus e oito embarcações menores, A entrada da Guanabara, essa frota ainda esperou pela chegada de um bergantim e muitas canoas procedentes de São Vicente. Intimados por escrito, recusaram-se os franceses a render-se, antes responderam ao capitão com soberba. A 15 de marços começaram os atacantes a desembarcar na ilha, então sob o comando de Bois-le-Comte (sobrinho de Villegaignon). Num golpe de audácia, alguns dos portugueses conseguiram enfim penetrar no castelo, apoderando-se da pólvora de que  dispunham os defensores. Desanimados com tamanha perda, desampararam estes o lugar com todas as máquinas de guerra nele existentes. A luta nesta última fase foi dura, quase sem interrupção, dois dias e duas noites, rematando-a a vitória de Mem de Sá e de seus portugueses.

Dos franceses existentes na ilha, pode presumir-se que seu número se elevaria a várias dezenas – setenta e quatro homens ao todo com alguns escravos, além de quarenta e tantos de um navio apresado e outros que andavam em terra, segundo pretendeu o governador. Parte destes seriam intérpretes e aventureiros, remanescentes, em geral, de antigas expedições, que não tinham aceito a dura disciplina imposta aos colonos por Villegaignon e pelo seu sobrinho e substituto Bois-le-Comte. De alguns consta que viviam em harmonia com os portugueses. Ao lado dos defensores europeus do forte, contaria este com a simpatia das parcialidades tupinambás disseminadas nas vizinhanças. A acreditar nas avaliações do próprio Mem de Sá e nas do Pe. Manuel da Nóbrega, o grande animador desse combate, o número dos gentios que se puseram ao lado dos franceses oscilaria entre oitocentos e mais de mil.

Ainda assim, mal se pode pensar que toda essa gente fosse apta a uma resistênca séria ao corpo expedicionário português, constante de dois mil homens bem armados e municiados, sem falar nos reforços provenientes de São Vicente e Santos.

A captura da ilha e do forte de Coligny assinala o fim da tentativa francesa de ocupação e colonização da Guanabara. Em França, Villegaignon não cessaria, é certo, de tentar meios para a recuperação do perdido,  e agora com o apoio decidido dos jesuítas naquela ofensiva. A verdade, porém, é que sua ruptura declarada com a facção protestante impossibilitaria de fato, se bem sucedida as gestões feitas junto à Coroa, o recrutamento dos únicos colonos que, em face das ameaças de perseguição e das perspectivas de guerra civil, emigrariam de boa mente e em número apreciável para a França Antártica.

Seja como for, essas tentativas, e ainda os pedidos de indenização feitos pelo vice-almirante através do embaixador português  em Paris – aparentemente com resultados positivis – não pertencem propriamente à história do Brasil. Aqui, a conquista do baluarte de Serigipe representava apenas uma parte, e não a principal, do trabalho de Mem de Sá , no Rio de Janeiro. Afirma Gabriel Soares de Sousa que, ciente dessa vitória, muito estranhou a rainha Dona Catarina ao governador-geral o arrasar a fortaleza que conquistou aos franceses, e não deixar nela quem a guardasse e defendesse para se povoar o lugar. A razão de não se tomar logo essa medida vinha, no entanto, da carência de gente e de soldados necessários à defesa.


Operação de pacificação do Rio de Janeiro, por Mem de Sá

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Índio sugerindo curso de ação a Mem de Sá

Como continuasse a ida de naus francesas para os diálogos comerciais com os índios e não cessasse a resistências destes à soberania lusitana, ali e nas terras vizinhas, determinou Mem de Sá o preparo de uma frota para a definitiva pacificação, conquista e povoamento do Rio de Janeiro, dando a capitania ao seu sobrinho Estácio de Sá. Tendo partido para o sul em fins de 1563 e chegando ao Rio com alguma demora, pois se detivera no caminho a colher reforços, o capitão-mor, que logo à entrada da barra capturara uma nau de franceses, deliberou continuar a viagem até São Vicente, a fim de conseguir novos auxílios de portugueses e Tupiniquins. Com esses contingentes, tornou a alcançar a Guanabara, dando início a uma povoação no istmo da península de São João entre o morro do Cão e o Pão de Açúcar, que teve logo a categoria de cidade, com o nome de São Sebastião.Não faltaram, então, e depois, escaramuças com os índios e as naus francesas que iam a fazer escambos. Um ataque vigoroso ao estabelecimento português chegou a ser empreendido por três dessas naus, ajudadas de dezenas de canoas indígenas saídas do Cabo Frio. Esse e outros combates travados em torno da nova cidade – num dos quais foi alvo de uma flechada mortífera o próprio Capitão Estácio de Sá – sugeriram sua mudança para lugar mais defensável, no morro depois chamado do Castelo. 

Se tal estratégia melhorou a segurança dos moradores, nem por isso interromperam-se inteiramente as ciladas e acometidas dos índios e seus aliados. Embora o núcleo de suas atividades se achasse agora transferido em grande parte para o Cabo Frio, eram constantes as apreensões dos portugueses. Para reduzir semelhante foco de eventuais hostilidades, foi cabal a contribuição de Antônio de Salema, um dos dois sucessores de Mem de Sá, encarregado de governar as partes do sul. Com efeito, logo depois de aportar ao Rio de Janeiro, tratou ele de juntar a gente de guerra disponível e, com uma força calculada, na época, em quatrocentos portugueses, aproximadamente, e setecentos índios amigos, abrangendo os socorros obtidos no Espírito Santo e ainda em São Vicente, rumou em agosto de 1575 para o baluarte dos contrários. 

Alcançado o Cabo Frio, iniciou Salema o ataque, resultando mortes de parte a parte já às primeiras pelejas. Como não surtisse o efeito esperado essa investida inicial, deliberou o governador pôr cerco aos inimigos. Dessa forma acreditava poder subjugar o adversário, provando sua rendição pela fome e sede. 

Não foi preciso mais para que se dispusessem os sitiados a negociar um acordo por intermédio de seu capitão. Deste erigiu primeiramente Antônio de Salema a entrega de três estrangeiros, dois franceses e um inglês, homens engenhosos e de boa experiência na disciplina militar, que tinham ajudado muito aos tamoios em sua defensiva. Atendida a reclamação, foram os três condenados à forca, e morreram de forma heroica e piedosa. O capitão tamoio pediu, por seu lado, que lhes fosse dado, a ele e aos seus, continuarem no lugar, onde permaneceriam como fiéis vassalos da Coroa portuguesa. A isto porém não quis atender o governador; antes impôs a rendição de todos os que, procedentes das aldeias circunvizinhas, tinham corrido em auxílio dos defensores, e eram mais de quinhentos. Os quais foram chacinados, quando não escravizados. Igual destino teriam, aliás, os próprios habitantes do lugar. Em face de tamanhas atrocidades, precipitaram-se para o sertão os habitantes indígenas de toda aquela redondeza, mas nem assim escaparam à fúria dos assaltantes. Consta que dois mil desses fugitivos foram mortos e quatro mil reduzidos ao cativeiro. 

Pode dizer-se que esse episódio assinala verdadeiramente o ponto final da aventura iniciada por Villegaignon na Guanabara e do conluio entre sua gente e os Toüpinambaoults. Contudo não cessa aqui a ameaça representada pelos franceses, protestantes ou católicos, ao monopólio lusitano sobre esta parte do continente ocidental.


Mesmo vencidos os franceses continuam com as atividades clandestinas nas costas brasileiras

 

Corsário francês

Em alguns casos limita-se os franceses à prática da pirataria, que embaraça gravemente a navegação entre o Reino e as costas brasileiras. O caso, por exemplo, do assalto dado em 1570, perto de Las Palmas, pelos navios do huguenote normando Jacques Sore ou Soria, a uma das naus da frota onde viajava o governador nomeado D. Luís de Vasconcelos. A nau atacada foi Santiago, onde se encontravam o novo provincial, Padre Inácio de Azevedo, e outros trinta e nove militantes da Companhia de Jesus, além de quatorze ou quinze homens de diferentes ofícios. Foram mortos todos os jesuítas, a começar pelo provincial, cujo martírio a Igreja glorificará com as honras da beatificação. Outra nau, em que ia D. Luís de Vasconcelos, conseguiu chegar à vista do Brasil, que demandava, mas ventos contrários arrastaram-na em seguida às Antilhas, de onde pretendeu tornar a Portugal. No caminho, porém, atacaram-na outros corsários, franceses e ingleses, sob o comando de Jean Capdeville, morrendo em luta o próprio D. Luís. Foram mortos também doze dos quinze jesuítas que acompanhavam. Dois conseguiram escapar e um que, atemorizado, se vestira de grumete, foi levado pelos franceses com outros presos. Vendo, porém, que não sabia marear, lançaram-no com os mais às ondas, mas este não se considera mártir. 

Prosseguiram, também os franceses, contatos de comércio com os indígenas, mormente nas regiões mal atingidas pela colonização portuguesa. Durante o governo de D. Luís de Brito de Almeida, um dos sucessores, com Salema, de Mem de Sá, tendo-lhe cabido o governo das capitanias do norte, iam as naus francesas constantemente buscar pau-brasil nas terras do Rio Real, até que se fez uma povoação junto ao referido rio. Em 1570, sob o governo de Lourenço da Veiga, incendiaram-se em portos brasileiros onze navios franceses carregados de mercadorias avaliadas em mais de um milhão; para fugir à cólera dos portugueses, colocaram as equipagens pelo mato adentro. Em 1580, três embarcações da mesma nacionalidade foram forçadas a sair da Guanabara rumo ao sul. Em 1581, os outros três navios franceses, aproveitando-se de momentânea ausência do governador, ainda tentaram alcançar, sem resultado, o porto do Rio de Janeiro. Meses depois, Frutuoso Barbosa, tendo partido de Pernambuco, ataca várias naus intrusas à entrada do porto da Paraíba, de que resultou incendiarem-se cinco embarcações francesas. Há notícia de que o mesmo capitão, ou um seu associado, aniquilou quase simultaneamente um fortim, também de franceses, estabelecido nas imediações e onde iam navios todos os anos a carregar pau de tinta. Da gente das equipagens, uns foram chacinados, outros debandaram para o sertão, acolhendo-se entre as tribos amigas. 


Referências

Buarque de Holanda, S. História Geral da Civilização Brasileira I. A Época Colonial 1. Do Descobrimento à Expansão Territorial. 7. ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 147 – 168

Ipanema, C. História da Ilha do Governador. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Marcello de Ipanema, 1991. Disponível em: https://goo.gl/g5Su6Q

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