A imigração no Brasil Colonial

Antes de se desenvolver no Brasil uma fonte de riqueza como o açúcar, por exemplo, ou, bem mais tarde, como a mineração, era inútil tentar atrair uma imigração espontânea volumosa. Por ora, enquanto a terra era pobre, vinha a gente do serviço do rei, que frequentemente não passava muito tempo na terra, e além disso viriam degredados e aventureiros, que, na busca de riquezas fáceis e imaginárias, quase não se importavam dos riscos ou das perdas. Em regra partiam sós, como quem vai para a guerra, deixando, quando os tinham, mulheres e filhos. No próprio aproveitamento do solo agirão sem prudência ou moderação, movidos antes por um ânimo predatório do que por uma energia resolutamente produtiva. E se conseguem reunir alguma riqueza, comportam-se então como barões feudais, gastando quanto podem, e mais do que podem.

Desse tipo é, talvez, a maioria dos colonos que de Portugal nos chegaram nos primeiros tempos. Mesmo os mais miseráveis logo esquecem suas origens humildes e tratam de glorificar fidalguias. É possível que, para a conquista do território, esses homens, mais ousados do que cautelosos, sejam, em verdade, os melhor indicados. Em terra tropical e cheia de imprevistos problemas, ainda não há, talvez, lugar para o trabalho persistente e paciente de muito lavrador europeu.


Minho-Lima

Ao tempo dos primeiros governos-gerais a imigração mais ou menos espontânea de lavradores e artesãos tende naturalmente a procurar as regiões onde o plantio da cana promete ou já começa a dar lucros. Assim ocorre sobretudo em Pernambuco, onde um conjunto de circunstâncias fará com que predominem, entre esses povoadores, os provenientes do Minho. E tão conscientes e orgulhosos se mostram eles dessa sua origem que, segundo informa um cronista, a gente de Olinda tinha por hábito exclamar “Aqui de Viana!“, ao invés de dizer “aqui del-rei”. Viana era e ainda é uma região localizada no Minho-Lima.

Independentemente, porém, dessas circunstâncias locais, é natural que então, e mais tarde, os minhotos (pessoas do Minho) tivessem papel considerável, por ser a sua uma das áreas mais densamente povoadas no Reino, entre os colonos do Brasil. Já em 1527, quando Portugal contaria pouco mais de um milhão de habitantes, acredita-se que houvesse no Minho oitocentos e tantos habitantes por légua quadrada.

Não se pode afirmar, todavia, que essa preponderância do minhoto e, em geral, do português do norte, fosse absoluta em todo o Brasil. Em São Paulo, por exemplo, o exame dos títulos genealógicos de Pedro Taques e outros depoimentos fazem crer que os troncos de muitas das principais famílias procedem, efetivamente, do norte ou, também, do centro do reino (e em parte considerável, das ilhas), mas os indivíduos de tais procedências não representam maioria esmagadora. Se o Douro e a Beira, terra de João Ramalho, fornecem, possivelmente, notáveis contingentes para o povoamento da capitania vicentina, o Alentejo, por sua vez, não se acha mal representado. A contribuição algarvia, esta sim, parece praticamente insignificante.

Os trabalhos rurais hão de constituir ocupação mais generalizada numa época em que é incipiente e medíocre a vida urbana. Há, porém, os que se dedicam ao comércio volante ou têm alguma tenda de negócios. São escassos ainda os ofícios mecânicos, embora no século XVI já se achem sujeitos a posturas, juízes, taxas de ofício e, às vezes, arruamento.

Só com o progresso das vilas e cidades é que se oferecerão possibilidades maiores e mais variadas aos colonos. Muitos destes, e parece que mais frequentemente minhotos e beirões irão aplicar-se então ao pequeno comércio. Os da Estremadura, menos ativos embora, parecem mostrar vocação para ofícios mecânicos, ao passo que os ilhéus continuarão dedicados principalmente à lavoura.


Sevilha, Espanha

Além dos portugueses, outros colonos europeus contribuem, sobretudo nesse primeiro século, para o povoamento da terra. Espanhóis, flamengos, italianos, alemães e até mesmo ingleses ou franceses, aparecem muitas vezes entre moradores do Brasil. Não se pode pretender, contudo, que, de um ponto de vista étnico, fosse extraordinária a sua contribuição. Quase todos iam perder-se facilmente na massa dos colonos de procedência lusitana. A partir da reunião das Coroas castelhana e portuguesa, sob os Filipes, é que se irão tornar mais severas as medidas restritivas em favor da colonização ibérica, inclusive castelhana, de sorte que, na Capitania de São Vicente, os espanhóis, especialmente sevilhanos, chegarão a constituir importante núcleo.

Uma consideração mais pormenorizada desses fatos levaria muito além da fase de instituição do governo-geral com suas mais próximas consequências. Mas não há dúvida que os primeiros governadores, se não Tomé de Sousa, ao menos Mem de Sá, já abrem caminho largo para o incremento da colonização, ajudando a ampliar as fontes de riqueza da terra e principalmente desbastando-a de obstáculos à formação de correntes migratórias espontâneas.


Referência Bibliográfica:

História Geral da Civilização Brasileira I. A Época Colonial 1. Dos Descobrimentos à Expansão Territorial. 7. ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 120-122

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