O problema da falta de mulheres nos primórdios da colonização do Brasil

 

A assiduidade e intimidade desses contatos entre os europeus e os gentios da terra, particularmente as mulheres dos gentios, tinham sérios inconvenientes, sobretudo considerados do ponto de vista da moral cristã. Se outros eclesiásticos fechavam os olhos ao perigo que assim se expunham colonos e índios, e não raro se acumpliciavam com os pecadores, confirmando-os em seu erro, os jesuítas, entretanto, foram desde o primeiro momento intransigentes nesse ponto. 

O problema era, porém, de difícil solução. A Coroa portuguesa, de um modo geral, mostrava-se desaforável ao embarque de mulheres nas frotas que se  destinavam ao ultramar, e não é provável que elas tivessem vindo em número apreciável na armada de Tomé de Sousa. De uma, ao menos, consta que chegou a ser motivo de discórdia. E não faltou quem pedisse ao governador certa escrava que este trouxera – talvez escrava moura – dizendo que a queria alforriar. O resultado é que veio logo a prevalecer aqui, como na generalidade das colônias portuguesas, o costume de amancebarem-se logo os estrangeiros com mulheres indígenas, por vezes, com mais de uma. Já em 1549, o ano da chegada da frota, queixa-se o Padre Manuel da Nóbrega desse hábito e, ainda mais, do fato de largarem os homens a essas suas mulheres sempre que lhes agradassem, no que não se mostravam diferentes ou melhores do que os pagãos. 

Antes da terra ser arrumada para recebê-los, seria esperar demais grandes coisas de colonos ditos “da melhor casta”. Nem cabia pretender ver cumprido à risca, nestas partes, muito do que se recomendava no Reino pelos que não se achavam familiarizados com as asperezas do Brasil. O próprio ouvidor-geral Pedro Borges, que, no entanto, chegará a ser dado por severo e pouco caridoso, há de entender assim, deixando de usar do rigor da lei contra certos homens que tinham suas mulheres no Reino, e andavam por aqui publicamento amancebados com índias da terra. Justificando-se em carta a Sua Alteza pela aparente negligência, declara ele: 

Esta terra, Senhor, para se conservar e ir avante, há mister não se guardarem em alguma coisa as Ordenações, que foram feitas não havendo respeito aos moradores delas“. 

O próprio Bispo Sardinha, que não se distinguiu dos outros, pelo seu ânimo conciliador, parece ter tido igual parecer, de sorte que seus pregadores, com grande escândalo dos jesuítas, eram livres de fazer, aos amancebados, muito largo o caminho do Céu, que o mesmo Senhor dissera que é estreito. E em carta a D. João III declara que “muitas mais coisas se hão de dissimular que castigar, mormente em terra tão nova…” Sendo, embora, de outro parecer, o Padre Manuel da Nóbrega não via inconveniente em se temperarem alguns abusos com o que a outros não deveria parecer mal menor. Assim é que chegava a pedir a vinda de muitas mulheres, “e de toda qualidade, ate meretrizes, porque há aqui várias qualidades de homens (…) e deste modo se evitarão pecados e aumentará a população no serviço de Deus“.

O outro remédio que propunha para se consertarem os mesmos abusos, e porventura o mais viável, dados os frequentes embaraços que opunha a Coroa aos embarques de mulheres, mesmo casadas e em companhia dos maridos, estaria na exceção que D. João III admitia, neste caso, em favor das chamadas “orfãs del-rei“. Já na índia estabelecera-se o sistema aparentemente sem grandes resultados, e numa carta de S. Francisco Xavier, datada de 1548, pede-se pagamento da esmola feita por Sua Alteza à casa das órfãs de Goa onde estas eram mantidas enquanto estivessem solteiras. Já em 1550, no mês de janeiro, escreve de Porto Seguro o Padre Nóbrega dizendo que, se el-rei determinava povoar a terra, era necessária a vinda de muitas mulheres órfãs, que se casariam aqui com os bons e os ricos. E insistia, em 1551, em outra carta, esta de Pernambuco:

Para as outras Capitanias mande V. A. molheres órfãas, porque todas se casarão. Nesta nam são necessarias por agora por haverem muitas filhas de homens brancos e de índias da terra, as quais todas agora casarão com ha ajuda do Senhor…“.

As primeiras chegaram nesse mesmo ano de 51, três irmãs, filhas de um Baltasar Lobo de Soares, morto na carreira da Índia. Em 1553 virão nove, e sete em 1557. É evidente que, com esses contingentes reduzidos, não se resolveria o problema que parecia atormentar algumas autoridades e, em particular, os padres da Companhia. Na Índia sucedia o mesmo, aliás, onde raramente chegou mais de uma dúzia de meninas órfãs por ano, segundo apurou o Prof. C. R. Boxer no prefácio à sua tradução inglesa, da História Trágico-Marítima; em geral iam duas ou três, por vezes nenhuma. 


Fonte:

de Holanda, S. História Geral da Civilização Brasileira I. A Época Colonial 1. Do Descobrimento à Expansão Territorial. 7. ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 116-117, 119-120

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