Reino de Portugal e a deficiência em suprir as colônias longínquas com materiais de construção

É sabido que a fundação de cidades constituiu, em todos os tempos, o meio específico de criação de instrumentos locais de domínio, principalmente se em lugares muito longe da metrópole. E Portugal não fugiu à regra, ao menos durante a fase mais ativa de sua expansão ultramarina.

Referem as crônicas de Rui de Pina e Garcia de Rezende, como dispondo-se a fundar na Mina, em 1481,  o castelo e cidade de São Jorge, o rei D. João II mandara que, além de quinhentos homens para defesa e serviço da fortaleza, fossem nada menos do que uma centena de pedreiros e carpinteiros. Outro tanto se fará mais tarde na Graciosa, que definhou por ser lugar exposto a pestilência e assalto dos mouros de Marrocos.

A fundação da cidade para alocar o Governo Geral

A cidade de Tomé de Sousa haveria de ser o centro e, de todas as capitanias, segundo dirá no século seguinte (séc. XVII) um frade historiador, filho da mesma cidade, “como o coração no meio do corpo donde todas (…) se socorressem e fossem goverandas“.

Expresso em diplomas oficiais, o empenho urbanístico é manifesto, além disso, na própria especialização de muito dos operários chegados com o governador-geral. Escolhido o lugar para a fundação, que não podia ser o da chamada “vila do Pereira”, por assim se ter decidido já em Almeirim, mal se passaram quatro semanas depois do desembarque e começaram esses homens, com o mês de maio, os trabalhos do estabelecimento definitivo. Grande parte dos trabalhos ficara sob a direção do “mestre de pedraria”, Luís Dias, que nunca se acostumará com a rudeza da terra, e mais a um mestre-de-obras, sem falar no mestre de fazer cal.  O elenco dos operários trazidos é, por si só, significativo da grande preocupação que guiará a criação do governo-geral. Além de grande número de pedreiros, abrange eles serradores, tanoeiros, serralheiros, caldeireiros, cavouqueiros, carvoeiros, oleiros, carreiros, pescadores, construtores de bergantins, canoeiros… Havia ainda um “físico-cirurgião”, um barbeiro, que , segundo costume da época, serviria igualmente como sangrador, e até mesmo um encanador.


Mina e Graciosa

Nos casos das cidades acima, brevemente colocado na introdução do post, além dos oficiais pedreiros e carpinteiros, há notícia de que foi até material de construção, inclusive madeira e pedraria para portais, janelas e esquinas de torres, que saíram lavrados do Reino, além de muita cal amassada e composta, ladrilho, telha, pregos, tudo em grande quantidade. Isso seria possível, no entanto, onde se tratasse, como era o caso, de conquistas relativamente próximas: na Mina, por exemplo, o material teria ido em urcas velhas para lá se desfazerem e não mais voltarem, aproveitando-se talvez o madeirame nas construções de terra firme, ao passo que o grosso da gente embarcou nas caravelas. Seria possível tarefa semelhante nas embarcações da carreira da Índia ou do próprio Brasil, quase sempre supoerlotadas e onde a distância aumentava naturalmente os riscos a que se expunham tripulantes e passageiros?

Em tais casos se acreditava que a grande riqueza de recursos de tais terras pudessem suprir falhas que não poderiam ser previnidas pelo transporte de tais materiais. Crença ilusória em certos casos, e origem de muitos perigos e decepções. Assim, na grande armada de D. Francisco de Almeida, que em 1505 saíra para o Oriente, embora, segundo João de Barros, ainda entrasse uma galé transportando madeira lavrada em Portugal, faltava outra matéria para edificações, e assim a fortaleza de Anchediva, muito recomendada por Sua Alteza ao primeiro vice-rei da Índia, houve de fazer-se toda de pedra e barro, pois nãi havia cal nem a bordo nem na ilha e no continente vizinho.


O problema da falta de materiais para o  Brasil

O regimento de Tomé de Sousa manda que a fortaleza da Bahia se faça, se possível, de pedra e cal e, não havendo nem uma nem outra coisa, de taipais ou madeira, contanto que saia forte e da grandura e feição compatíveis com as condições locais. Sinal de que, existindo, embora, arquiteto, operários e até traçados prévios para a fortaleza, não viera nos navios da armada outro material de construção, além de certas “achegas” de cal, telha e tijolos a que alude o Regimento colonial.

Essas achegas, é o que está no texto, eram mandadas para que se pudesse começar a fortaleza, e só para isso. O resto e, afinal, toda a aglomeração de casas da cidade ficavam na dependência do que pudesse dar a terra e não era muito. Para começar faltava pedra, mesmo havendo cavouqueiros. A lembrança de empregar nas construções a pedra de lastro dos navios, pedra oriunda das redondezas de Lisboa, só poderá ocorrer bem mais tarde, quando os navios velejarem de volta, abarrotados de caixas de açúcar do Recôncavo baiano.

Naqueles primeiros tempos, entretanto, nem cresciam ainda as canas, nem havia outra mercadoria capaz de lastrear navios. A não ser, porventura, toras de madeira, principalmente de pau-brasil, penosamente trazidos das matas distantes, como aqueles que, um ano mais tarde, há de levar em sua ida para a Europa a nau Conceição.

Madeira, aliás, é o que não falta, e de boa serventia. Luís Dias lembrou-se de fazer de paus de mangue o baluarte da Ribeira de Góis, e não se arrependeu, porque, apesar de madeira, cria-se dentro d’água e, dizia, é “como ferro“. Tanto que o referido baluarte ficara muito poderoso, no alto de um rochedo que domina toda a baía e suportava diversas peças de artilharia trazidas do Reino, a saber, dois camelos, dois falcões e meia dúzia de berços.

Aos poucos vão aprendendo os moradores a suprir muitas e sensíveis deficiências de material e de mantimentos valendo-se das produções do lugar. As primeiras paredes, de taipa, fazem-se sem cal ou reboco, mas isso não detêm a marcha das construções, tanto que em agosto, menos de cinco meses depois da chegada da expedição, já se conta uma centena de casas no recinto da cidade. É claro que essa pobreza traz incovenientes sérios, pois nada se pode fazer aqui de definitivo. Assim é que em 1551 uma invernada mais forte vai deitar por terra parte dos muros de Salvador. Já agora, porém, achava Luís Dias o meio de rebocá-los por dentro e por fora, e assim, são palavras suas em carta a D. João III, “ficarão tão fortes que durarão muitos anos, até que V. A. tenha na terra mais rendimento com que pelo tempo em diante possa gastar mais em fazê-los como quiser“. É que já então tinham sido encontrados depósitos de cal, cal de ostreiras, provavelmente na ilha de Itaparica, onde podiam abastecer-se os pedreiros.


Referências

História Geral da Civilização Brasileira I. A Época Colonial 1. Do Descobrimento à Expansão Territorial. Traducao . 7. ed. São Paulo: Difel, 1985. p. 114-116

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