Mitos de outros tempos: quem “realmente” descobriu o Brasil?

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Não só em favor de portugueses tem sido suscitado, aliás, o problema dos eventuais precursores de Pedro Álvares Cabral. Uma das questões surgidas a propósito do descobrimento do Brasil é, com efeito, a da prioridade invocada em diversas ocasiões, para os franceses, espanhóis, italianos e até alemães.

Franceses

Já por volta de 1524, numa Hidrografia de autoria de George Fournier, dizia-se de marinheiros de Dieppe que tinham alcançado, antes dos portugueses, a costa brasileira, chegando à embocadura de grande rio que bem poderia corresponder ao Amazonas. Os nomes dos capitães responsáveis por esse descobrimento seriam Gérard e Roussel.

Outro nome, associado à versão de que os franceses alcançaram terras do Brasil anteriormente aos portugueses, teve, entretanto, maior crédito e longevidade: o de Jean Cousin. Pretendeu-se, durante longo tempo, que mercadores da mesma cidade de Dieppe fizeram, em 1488, uma espécie de sociedade comercial e propuseram que um hábil marinheiro e soldado daquele nome saísse por sua conta em viagem de exploração. Tendo Cousin navegado até os Açores, viu-se arrastado por uma corrente marítima na direção do Oeste e deu em terra desconhecida, junto à boca de largo rio. Antes de chegar, de volta, à França, ainda teve ocasião de explorar grande parte do sul da África, aportanto ao Cabo da Boa Esperança, no mesmo ano em que o descobrira Bartolomeu Dias.

Essa versão, que apareceu somente em 1785 nas Mémoires chronologiques pour servir à l’histoire de Dieppe et de la navigation française, de autoria de Desmarquets, dava a um francês a primazia no descobrimento não só do Brasil como da América. Além disso, a glória de Colombo sairia seriamente arranhada se, conforme declarou o autor das Mémoires chronologiques, o imediato de Cousin fora Vicente Yáñez Pinzón, o mesmo Pinzón que comandará em 1492, o Niña e que, naturalmente, teria revelado ao genovês o segredo das terras ocidentais.

Embora não se conhecessem maiores provas em seu favor, continuaria a expedição de Cousin, durante largo tempo, a ser quase um artigo de fé para numerosos autores, e não apenas autores franceses. Como se poderia pretender provas em seu apoio, chegaram a alegar alguns, quando estas tinham sido queimadas em 1694 pelos ingleses, quando do bombardeio de Dieppe? As contradições e inverossimilhanças da narrativa de Desmarquets eram demasiado grosseiras, no entanto, para justificar a atenção que tinham merecido. Pretendeu-se nela, por exemplo que Jean Cousin recebera o comando da expedição de 1488 como recompensa pelos grandes serviços que prestara em combates navais contra os ingleses. Sucede, porém, que durante vários decênios, antes daquela data, não se tinham verificado esses combates navais. Sob os reinados de Luís XI (1461-1483) e de Carlos VIII, as relações da França com a Inglaterra, que dilacerava em convulsões internas resultantes da Guerra das Duas Rosas, foram constantemente pacíficas.

Os argumentos mais sérios contra a autenticidade da expedição de Jean Cousin ao Novo Mundo partiram, em verdade, da própria França, onde, em 1898, Edouard Le Corveiller cuidou de destruí-las em trabalho impresso no boletim da Societé de Géographie de Paris. Nesse trabalho, depois de assinar que existiram, de fato, vários marinheiros em Dieppe com o apelido de Cousin ou Cossin, acrescenta que “a história de Jean Cousin não consta de nenhuma crônica local”. Existiu, é certo, um Jean Cousin, mas no século XVI, o qual compôs em 1570 uma descrição do globo terrestre, e ainda se achava vivo em 1573. Não é impossível que Desmarquets, recuando de um século alguns dados que pudera apurar sobre esse personagem, deles se valera, engrossando-os desmedidamente, para construir sua fabulosa narrativa. Hoje, a história de Jean Cousin quatrocentista e de sua extraordinária expedição ao hemisfério ocidental acha-se geralmente desacreditada.

Alemães

Menos famosa que essa, a pretensa expedição americana de Martim Behaim, que antes de Cabral e mesmo antes de Colombo teria visitado este continente, inclusive, naturalmente, o Brasil, além do estreito depois chamado de Magalhães, encontrou grande número de adeptos. Apoiavam-se estes, de um lado, no depoimento já lembrado de Pigafetta sobre a representação do mesmo estreito em carta de Behaim existente na tesouraria del-Rei de Portugal, de outro no testemunho do Imperador Maximiliano, quando disse daquele geógrafo e explorador que fora o viajante mais notável, dentre seus súditos, e aquele que avistara os sítios mais remotos do globo terrestre.

Contudo não se pode negar que Behaim ajudou a divulgar, pelo Sacro Império Romano-Germânico, notícias ligadas aos Descobrimentos Portugueses. As informações, que transmitiu, conduziram a uma ocupação intelectual mais intensa com Portugal por parte dos humanistas alemães. O globo de Behaim, apesar de transmitir na sua generalidade ainda o mundo pré-colombiano, revela que a expansão marítima portuguesa contribuiu para uma nova imagem do mundo e conduziu a uma acesa discussão erudita, sobretudo em Nuremberga. Nesta discussão até o próprio imperador Maximiliano I tomou parte, como documenta uma carta do médico e humanista nuremberguês Hieronymus Münzer a D. João II, datada de 14.7.1493, na qual se propunha ao rei de Portugal uma viagem de descobrimento conjunta, via Ocidente, com destino a Cathay, onde se esperava encontrar as terras das especiarias. O documento prova que Behaim e Münzer partilharam a mesma ideia que Colombo tentava levar a cabo a partir de 1492. Não se sabe ao certo em quantas expedições marítimas Behaim esteve presente mas, pelas indicações que se encontram no globo e noutras fontes próximas dele, deve ter visitado o litoral do Golfo da Guiné e participado na luta contra os “infiéis”. Conheceu também o arquipélago dos Açores, onde o prendiam laços familiares. Quando viveu em Portugal continental encontramos Behaim na corte de D. João II e em contacto com navegadores portugueses. Através de Diogo Gomes de Sintra tomou conhecimento da história do descobrimento da Guiné, como mostra o denominado Manuscrito Valentim Fernandes, que inclui o documento intitulado «De prima inuentione Guinee», também conhecido por Relato Behaim-Gomes. Independentemente da avaliação do seu papel nos Descobrimentos, é de constatar que Martin Behaim personifica a primeira geração de comerciantes da Alta Alemanha estabelecidos em Portugal, que se viriam a tornar tão importantes para o desenvolvimento das relações luso-alemãs no século XVI.

Já na Cosmografia de Wilhelm Postel, impressa em Basiléia no ano de 1561, dava-se seu nome (Martini Bohemi fretum) ao Estreito de Magalhães.

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Terrae Incognitae – Richard Hennig

A controvérsia em torno da atividade descobridora de Behaim segundo pôde apurar Richard Hennig, ocupou sobretudo autores alemães durante os séculos XVII e XVIII. Em 1682, um professor da antiga Universidade de Nuremberg, Wegenseil, pretendeu expressamente que “seu conterrâneo Martinus” descobrira, antes de Colombo, a América, e antes de Fernão de Magalhães, o estreito que conserva o nome deste navegador, lamentando que a fama do alemão fosse usurpada por outros mais afortunados do que ele.

Posteriormente, em 1714, publicou-se em Frankfurt am Main uma dissertação “de vero Novi Orbe inventore”, onde ainda se reinvidica para Behaim a façanha atribuída a Colombo. E no Léxico Universal de João Henrique Zedler, precisa-se, em 1730, que o nuremburguês viajara através do Oceano em uma nau de guerra do Duque de Borgonha, e com tão bom sucesso, que as informações por ele recolhidas acerca do continente americano serviram a Colombo e a Magalhães. Passados mais vinte anos, o Léxico de Jocher, impresso em Leipgzig, recolhe a mesma versão, e não faltará quem proponha dessa vez, para o Novo Mundo, o nome de Behaimia e até o de Boêmia Ocidental.

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Globo de Martim Behaim

Também nos Estados Unidos, encontraram algum eco essas teorias principalmente depois de longa carta dirigida a Benjamin Franlkin por um estudioso que, em favor da ideia do descobrimento da América por Martim Behaim, citava um globo, composto por este e existente em Nuremberg, onde, antes da primeira grande viagem de Colombo, já se apresentam o Brasil e a extremidade austral do continente. O assunto mereceu tanto a consideração de Franklin que o levou a publicar em 1786 nas Transactions of the American Philosophical Society, a argumentação a respeito. E no decurso do século passado (Séc. XIX) iriam retomá-la outros autores norte-americanos. Não faltaria, é certo, quem, e é o caso de Voltaire, no Essai sur les Moeurs, tivesse por fantástica a crença nessa viagem de Behaim ao Novo Mundo por volta de 1460.

“Lorsque Colombo avait promis un nouvel hémisphère, on lui avait soutenu que
cet hémisphère ne pouvait exister ; et quand il l’eut découvert, on prétendit qu’il avait
été connu depuis longtemps. Je ne parle pas ici d’un Martin Behem de Nuremberg,
qui, dit-on, alla de Nuremberg au détroit de Magellan en 1460, avec une patente d’une
duchesse de Bourgogne, qui, ne régnant pas alors, ne pouvait donner de patentes. Je
ne parle pas des prétendues cartes qu’on montre de ce Martin Behem, et des contradictionsqui décréditent cette fable: mais enfin ce Martin Behem n’avait pas peuplé l’Amérique. On en faisait honneur aux Carthaginois, et on citait un livre d’Aristote qu’il n’a pas composé. Quelquesuns ont cru trouver de la conformité entre des paroles caraïbes et des mots hébreux, et n’ont pas manqué de suivre une si belle ouverture. D’autres ont su que les enfants de Noé, s’étant établis en Sibérie, passèrent de là en Canada sur la glace, et qu’ensuite leurs enfants nés au Canada allèrent peupler le Pérou. Les Chinois et les japonais, selon d’autres, envoyèrent des colonies en Amérique, et y firent passer des jaguars pour leur divertissement, quoique ni le japon ni la Chine n’aient de jaguars. C’est” – Voltaire

Foram, entretanto, os estudos de Ghillany, em 1842, e posteriormente os de Reichenbach e Sigmund Günther, que acabaram por desmoralizá-la.

Espanhóis

Mais sólidas do que essas são, na aparência, as razões invocadas em prol das pretensões castelhanas ao descobrimento do Brasil antes de Cabral. Sabe-se, com efeito, que em fins do ano de 1499, saiu do porto de Palos o navegante Vicente Yáñez Pinzón com uma frota de quatro caravelas e que, depois de passar pelas Canárias e pelas ilhas de Cabo Verde, teria chegado em janeiro ou fevereiro de 1500 a um cabo situado ao sul do Equador, que batizou com nome de Santa Maria de la Consolación. Desse lugar, acompanhado sempre o litoral, dirigiu-se para o norte atingindo finalmente as Antilhas. Presumiu-se que o seu Cabo de  Santa Maria de la Consolación é o que receberia mais tarde, dos portugueses, o nome de Santo Agostinho, assim como seu Mar Dulce corresponderia ao Amazonas. Contra essas identificações manifestaram-se Duarte Leite e outros autores mais recentes, valendo-se de argumentos que, entretanto, nada têm de esmagadores.

Semelhante ao de Pinzón teria sido o itinerário de Diogo de Lepe, também castelhano, o qual saiu aparentemente de Palos, entre dezembro de 1499 e janeiro do ano seguinte. Não há dúvidas quanto à realidade histórica dessa expedição, mas é incerto o lugar e o mês exato em que possa ter alcançado em 1500, se alcançou, de fato, a costa brasileira. Melhor documentada, a viagem que levaria Lepe, dois anos depois, até ao Rio Marañón, identificado com o Amazonas, não é evidentemente de molde a incluí-lo entre os precursores de Cabral.

Anterior à de Vicente Yáñez , como à de Diogo de Lepe, teria sido aliás a viagem de Alonso de Hojeda, outro navegante espanhol que se julgou ter descoberto antes de 1500 a terra do Brasil. (1)

(1) “Quanto a Alonzo Vellez de Mendoza, outro suposto descobridor do Brasil, que teria estado em nosso litoral no ano de 1499, as razões que serviriam para abonar essa pretensão mostram-se de todo insubsistentes e já hoje merecem pouco crédito. (De Holanda, S. B., 1985)”

As razões em que se ampara essa versão oferecem, porém, discrepâncias fundamentais para o esclarecimento de seu roteiro. O depoimento prestado pelo próprio Hojeda, em 1513, não faz crer que ele tivesse alcançado as partes do Brasil descritas por Américo Vespúcio, participante da mesma expedição. Este, não só afirma  que entrara 15 léguas adentro por um grande rio, e só poderia tratar-se de uma das bocas do Amazonas, como acrescenta que acompanhou a costa, rumo ao sul, até uma latitude que corresponderia aproximadamente à do Cabo de São Roque.

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Cabo de São Roque – Rio Grande do Norte

A solução para tais discrepância, procurou dá-las, em estudo de exaustiva erudição, Alberto Magnaghi, que, em lugar da Lettera al Soderini utilizada por Varnhagen, e que o historiador italiano, com bons motivos, rejeita por ser falsa a carta que o florentino efetivamente escreveu de Servilha, em 18 (ou 28) de julho de 1500, para Pier Francesco de Medici. O que lhe parece lícito admitir é que Hojeda e Vespúcio, embora participando nominalmente da mesma expedição, sob o comando do primeiro, saíram em embarcações separadas e seguiram caminhos distintos. Hojeda escreve Magnaghi, saiu de Cadiz com quatro veleiros, e Vespúcio alude apenas a dois, que se achariam sob seu comando. É de notar, acrescenta, que Vespúcio fala sempre, a propósito dessa viagem, na primeira pessoa, de onde se há de concluir que os comandantes teriam certa independência: a expedição pode ter partido sob o comando de Hojeda, mas já haveriam os capitães autorização para tomar caminhos diversos, perseguindo cada qual seu próprio objetivo. Em tais condições, Vespúcio teria estado em terras brasileiras, não só anteriormente a Cabral, mas também a Vicente Yáñez Pinzón. Ele próprio admitirá mais tarde, a propósito do feito de Pedro Álvares, que este alcançara a “medesima terra, che io discopersi per Re di Castella, salvo che è più a levante“. Ou seja, parecia ser a mesma terra, mas um tanto mais para o leste.

No estado atual dos conhecimentos históricos, pode dizer-se que a sugestão de Magnaghi é o mais verossímil que se poderia esperar para o esclarecimento do problema, ainda quando não ofereça condições ideais de segurança. Contra o alegado por Vespúcio em sua carta de julho de 1500, escrita de Sevilha para Florença, não pôde prevalecer, por outro lado, nenhum argumento sério. E que os dados referidos em sua carta ele os apurara, de fato, no curso da expedição que saíra da Espanha sob o comando de Hojeda, indica-o a circunstância de este capitão, nas célebres Probanzas de 1513, citar expressamente o nome de “Emerigo Vespuche”, ao lado de Juan de la Cosa, entre os pilotos que consigo levara.

Seja como for, é só à custa de tateios, aproximações e exclusões que se podem retirar dados plausíveis de textos tão intrincados ou equívocos. E esse é o caso da generalidade dos documentos existentes acerca dos verdadeiros ou falsos precursos do descobrimento do Brasil por Pedro Álvares, o mesmo não se dirá da expedição deste último que nos é conhecida com grande abundância de pormenores.


Referências

de Holanda, S. História Geral da Civilização Brasileira. I. A Época Colonial 1. Do Descobrimento à Expansão Territorial. . 7. ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 44-48

Desmarquets, C. Mémoires chronologiques pour servir à l’histoire de Dieppe et de la navigation française. . 1. ed. Paris: [s.n.].

Franklin, B. A Letter from Mr. Otto, to Dr. Franklin, with a Memoir on the Discovery of America, 1786. Disponível em: <https://www.jstor.org/tc/accept?origin=/stable/pdf/1005197.pdf&gt;. Acesso em: 16 jun. 2016

Hennig, R. Terrae Incognitae. Traducao . 3. ed. Leiden: E. J. Brill, 1956. p. 395

Pole, J. Disponível em: <http://www.fcsh.unl.pt/cham/eve/content.php?printconceito=1213&gt;. Acesso em: 16 jun. 2016.

 

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