Breve análise antropológica da carta de Pero Vaz de Caminha

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A carta de Pero Vaz de Caminha, que para muitos considerada a certidão de nascimento do Brasil, um documento de alto valor histórico tanto para Portugal quanto  para o hoje conhecido Brasil, trouxe não apenas informações técnicas (longe disso) a respeito da terra que se achara naquele ano, mas sim uma visão de dois mundos completamente diferentes. O europeu civilizado objetivando grandes projetos de poder e do outro lado o selvagem manso (a priori) do qual mantiveram contatos de diferentes tipos ao longo dos anos.

O europeu e o índio

Para começar, os marinheiros quinhentistas apresentam-se, na carta, em sua quotidiana simplicidade: homens de carne e osso, não estátuas de bronze ou mármore (em uma hipotética visão indígena). Um deles, Diogo Dias, irmão de Bartolomeu, surge lado a lado com os Tupiniquins do Porto Seguro, procurando dançar ao jeito deles e ao som de uma gaita. Por ser homem “gracioso e de prazer”, torna-se serviçal aos navegantes, atenuando ou eliminando o natural desprezo ao indígena. O seu caso não é um caso isolado. O próprio Pedro Álvares surge aqui e ali, junto aos moradores da terra, folgando entre eles. Em uma dada ocasião lhe foi tentado pôr um tembetá de pedra verde, por parte de um índio velho, que tirou a coisa do próprio beiço.

“Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.” – Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel

Esse primeiro encontro das duas raças é o mais cordial que se poderia esperar. O europeu apresenta-se certamente cauteloso, fugindo a fazer o menor gesto que possa interpretar-se como provocação. O índio, de sua parte, mostra-se acolhedor, embora com algumas suspensões e cautelas- as mesmas cautelas que jamais deixará de manter, através dos séculos, em face do branco invasor. É a atitude normal em tantos povos primitivos, de quem vê continuamente, no estrangeiro, um eventual inimigo. Desconfiados, inconstantes, dissimulados… – não são outras as expressões que os próprios catequistas hão de utilizar depois para a descrição do gentio da terra. Essa oscilação não escaparia ao nosso mais antigo cronista.

Levados para bordo da chefia, onde são mimados e acolhidos com presentes, os Tupiniquins que tiveram esse privilégio não dão mais sinal de si, uma vez trazidos à terra. Outros escondem-se assustados, à presença de um branco, mesmo quando, momentos antes, pareciam confiantes e expansivos. Nisso não se mostram diferentes dos pardais diante de uma armadilha, declara-o Caminha. E nota ainda, a propósito, que ninguém ousava falar com voz muito grossa para que nao se esquivassem ainda mais.

“Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma mão para outra se esquivavam, como pardais, do cevadoiro. Homem não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar.” Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel

A possibilidade de conversão do índio

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Apesar de tudo, não haveria nenhum obstáculo insuperável à sua conversão e domesticação: “…essa gente”, escreve, “é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar”.

O Padre Manuel da Nóbrega, cinquenta anos mais tarde dirá a mesma coisa em outras palavras, comparando os índios ao papel branco, onde tudo se pode escrever.

O espírito de imitação, que tantas vezes tem sido apresentado como traço de caráter comum a todos os nossos índios, trambem transparece com nitidez dessa descrição da segunda missa no Brasil:

“E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.” Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel

Cabral e o encontro com os indígenas no navio

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Uma página, entre todas as da carta, merece particularmente ser guardada. É aquela onde se pinta a cena da apresenção de dois índios a Cabral, a bordo de um navio da frota. O diálogo dos gestos, que nesse momentno se trava, é admiravelmente instrutivo e, melhor do que muitas páginas de erudita interpretação psicológica ou etnológica, pode revelar a posição respectiva das duas raças que se defrontavam quando estava para começar a ocupação da terra.
Refere Caminha como, à chegada de dois índios, Pedro Álvares se achava sentado em uma cadeira, tendo ao pé um grande tapete de alcatifa que servia de estrado. Estava bem vestido, e trazia ao pescoço um colar de ouro muito grande. Vários comandantes e outras pessoas sentavam-se no chão, sobre o tapete. Acenderam-se tochas. Ao entrar, os dois índios não fizeram o menor gesto de cortesia e nem menção de falar ao comandante ou a outra qualquer pessoa. Um deles, porém, fitou o colar de Cabral e começou a acenar com a mão em direção à terra e depois ao colar,  o que os circunstantes tomaram como um modo de indiciar que ali havia ouro. Olhou ainda para um castiçal de prata e fez os mesmos acenos, como para dizer que lá havia também prata.
Mostraram-lhe um papagaio, que o capitao da frota levava consigo; tomaram-no logo e acenaram para a terra, como a dizer que os havia. Mostraram um carneiro; não fizeram caso. Mostraram uma galinha; quase tiveram medo; não lhe queriam pôr a mão e depois lhe pegaram como que espantados.
Deram-lhes de comer: pão e peixe cozido, confeitos, bolo, mel e figos. Não quiseram nada daquilo e se provavam alguma coisa, logo lançavam fora. Trouxeram-lhe vinho numa taça; mal lhe puseram a boca e não gostaram, nem quiseram mais. Trouxeram-lhe água em um jarro. Não beberam. Apenas lavaram as bocas e logo a lançaram fora.
Viu um deles umas contas brancas de rosário; alegrou-se muito com elas e lançou-as ao pescoço. Depois torou-as, enrolou-as no braço e pos-se a acenar para a terra e de novo para as contas e para o colar de Pedro Álvares, como se pretendesse dizer que dariam ouro por aquilo. Assim julgávamos nós, observa o escrivão, por assim o desejarmos. “Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isso não o quereríamos nós entender, porque não lhe haveríamos de dar”. Restituídas as contas do rosário, deitaram-se os dois de costa e puseram-se a dormir, sem procurar encobrir sua nudez.
Em toda essa conversação muda e em muitas outras passagens da carta, veem-se os tateios do colonizador futuro diante da terra e, por outro lado, a atitude ora receosa, ora indiferente e raras vezes admirativa do indígena em face das maravilhas exóticas que lhe exibe o homem branco.
Antes de terminar seu escrito, manifesta Pero Vaz a impressão de grande que lhe deu a terra, e formula sua própria opinião sobre o proveito que dela se poderia tirar:
“Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os
achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela
tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, bastaria. Quando mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.” – Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel
Quase se pode dizer que isso bastou, com efeito, durante os três ou quatro decênios que se seguiram ao Descobrimento. Até que as riquzas reais ou imaginárias do Oriente deixassem de entreter todas as imaginações, a terra de Vera Cruz seria pouco mais do que uma pousada no caminho da Índia.

Referência Bibliográfica

de Holanda, S. História Geral da Civilização Brasileira. I. A Época Colonial 1. Do Descobrimento à Expansão Territorial. Traducao . 7. ed. São Paulo: DIFEL, 1985. p. 49-51

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