Portugueses já usavam tecnologia astronômica antes de 1480?

Como se guiavam os mareantes?

As cartas de marear, ordinariamente usadas quando principiavam as viagens lusitanas rumo à Guiné, não indicam latitudes ou longitudes, mas apenas rumos e distâncias. Quando em alto mar, guia-se o mareante por meio de observações e estimativas naturalmente precárias.

O astrolábio e o quadrante

O aperfeiçoamento do astrolábio e do quadrante, que servem para a medição da altura, significará, por isso mesmo, progresso considerável nos recursos náuticos. Alguns autores julgam que o quadrante já teria sido usado em 1462 ou 1463 por Diogo Gomes, quando empreendia a sua segunda viagem à Guiné. Uma versão mais corajosa defendida por Jaime Cortesão, antecipa de onze ou doze anos o uso desse aparelho, em navios portugueses, que dele já se valeriam em 1451.

Estátua de Diogo Gomes

Sucede, no caso de Diogo Gomes, que o relato da viagem que fez à Guiné não foi redigido por ele, mas pelo célebre Martin Behaim, ou Martinho da Boêmia, a quem o português narrara, vinte anos depois, ou seja, entre 1482 e 1484, episódios da mesma viagem. Limitara-se o nuremburguês a anotar essas informações para, juntamente com outras, colhidas de sua própria experiência náutica, redigir mais tarde De prima inventione Guineae, cujo texto se guarda atualmente em Munique, na cópia manuscrita de Valentim Fernandes, alemão. E embora nesse texto recorra o redator, constantemente, à primeira pessoa, é difícil separar o que nele pertence a Martinho do que resulta das notícias dadas por Gomes. O fato de ter o primeiro andado pela Guiné em 1484-1485 pode autorizar a suspeita de que só então fora empregado o quadrante. O ego habebam quadrantem quando ivi ad partes ivi..., que aparece no mesmo manuscrito, não se referiria, nesse caso, ao navegante português e nem a fato ocorrido em 1462.

Martim Behaim

Tal suposição é reforçada pela circunstância de ser Diogo Gomes alheio aos conhecimentos astronômicos, que exigem o manejo do quadrante, segundo pôde apurar o historiador Duarte Leite. E caso tivesse ele levado consigo um quadrante para determinar a sua posição, como explicar que se fiasse, como o faz, na duração igual dos dias e noites para pretender, em dado momento, que chegara a transpor o Equador? A verdade é que se achava a 14º43″ de latitude norte, e tamanho erro mal se justificaria se tivesse o seu dispor aparelhos astronômicos.

Este ponto, frisou-o Guy Beaujouan durante o colóquio sobre a história marítima efetuada em maio de 1956, na Academia de Marinha da França. Chamou ainda atenção, o mesmo historiador, para a circunstância de o texto geralmente invocado como argumento em favor da teoria de que o quadrante já era usado em 1462 nos navios portugueses, não dizer, do aparelho levado à Guiné que se destinava a observação a bordo. Se devesse ser utilizado em terra, como é bastante provável, perde o argumento qualquer interesse, uma vez que essas observações terrestres eram usuais, de longa data, nas cidades europeias.

Razões semelhantes, ou ainda mais poderosas, tornam improvável a versão, impugnada, aliás, em estudos de Duarte Leite, de que já ao tempo do Infante D. Henrique, e precisamente em 1451, seria conhecido, a bordo de navios portugueses, o uso de instrumentos destinados a medição da altura pela estrela polar. Essa presunção parece implícita a Jaime Cortesão em certo passo do relato da viagem do embaixador de Frederico III, Imperador, que conduziu a irmã del-Rei D. Afonso V à cidade de Pisa. No trecho em questão alude-se, com efeito, a “mestres astrólogos bem conhecedores das derrotas pelas estrelas e pelo pólo”.

Em suma, nada prova, de modo decisivo, que, antes do ano de 1480, fosse conhecida a navegação astronômica. Quando muito pode supor-se com bons motivos, e essa possibilidade foi aventada por G. Beaujouan nos debates já aludidos que, em suas viagens ao longo da costa africana os portugueses fariam desembarcar eventualmente alguns astrônomos para determinar em terra a altura alcançada, ora – ao sul – pela altura do Sol.


 

SéRGIO BUARQUE DE HOLANDA (São Paulo). História Geral da Civilização Brasileira: I. A Época Colonial. 7. ed. São Paulo: DIFEL, 1986. p. 29-31. 1 v.

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